Interior da Bahia. Fevereiro de 2023. Os irmãos Luan e Maya chegam sorridentes ao primeiro dia de aula. É o começo de mais um ano letivo. Até aí nada de mais. A não ser por um fato muito especial e há tempos aguardado: a mudança de escola. Depois de três anos tendo que andar cinco quilômetros a pé e pegar duas conduções para chegar à cidade onde está situada sua antiga escola, eles finalmente poderão estudar bem pertinho de casa!
Nesse dia, com uma festa cheia de discursos, banda de música e um bolo enorme, servido com refrigerante, está sendo inaugurada a “Escola Municipal Professora Branca de La Luna”.
Depois da primeira música e do discurso de abertura feito pela diretora da escola, dona Abigail dos Santos Dutra, uma garota franzina de doze anos sobe ao palco montado bem no meio do pátio principal. Tímida, ela encara o público curioso, ergue umas folhas de papel grampeadas e começa a ler a história da mulher que dá nome à escola.
Nascida em meados da década de 40 numa noite de lua cheia, Branca de La Luna Costa González – primeira filha da cabocla Jacira Costa com o espanhol naturalizado brasileiro Javier González - recebeu esse nome tanto por sua pele muito clara quanto pelo espetáculo que se desenhava no céu no momento de sua chegada ao mundo. O “Branca” foi ideia da mãe e o “de La Luna”, do pai.
O casal trabalhava para um rico fazendeiro de cacau e morava em uma casinha localizada nas terras do patrão. Eles não tiveram mais filhos depois de Branca e se esforçaram para dar a ela a melhor criação possível.
Aos sete anos, Branca foi enviada para estudar na cidade. Sua madrinha conseguiu para ela uma bolsa de estudos e assim, no colégio interno, ela conseguiu formar-se professora primária.
Durante os anos de internato, Branca sempre ia passar as férias com os pais e ficava cada vez mais inconformada com o fato de não haver uma escola na fazenda para que os filhos dos trabalhadores pudessem estudar. Em outras fazendas havia escolas, mas naquela não! A menina Branca sempre dizia: “Quando eu crescer vou mudar isso!”
Branca de La Luna cresceu, e aos dezessete anos, já com seu diploma de professora nas mãos, retornou à casa dos pais decidida a montar uma escola na fazenda.
Apenas dois dias após sua chegada, rumou para a casa principal, a sede da Fazenda Joia Verde, e procurou pelo Coronel João Fontes Dutra, patrão de seus pais e dono de todas aquelas terras e outras mais.
Um menino magrinho, negro e muito ligeiro veio abrir a porta. Logo atrás dele apareceu uma mulher igualmente negra e magra, e com uma cara muito séria.
- Sai daí, menino. Não se mete aqui na sala, que os patrões não gostam! Você ainda vai me fazer perder esse emprego, que já não é lá grande coisa! Sai, sai!
E ele saiu correndo lá pra dentro.
- Bom dia. Não repara nos modos do moleque, é meu filho caçula, não tenho com quem deixar. Mas o que a senhorita deseja?
- Bom dia, senhora. Eu desejo falar com o seu patrão, que também é o patrão dos meus pais, Jacira e Javier.
- Branquinha! Você voltou! Nossa, como tá bonita! Não se lembra de mim?
Branca então se lembrou da Zuleide, antiga empregada da “casa grande”, bisneta de escravos da fazenda.
Elas se abraçaram e colocaram a conversa em dia. Zuleide contou que o patrão estava viajando e só chegaria dali a quatro meses e que a patroa, dona Carmem, que estava àquela hora cuidando de suas roseiras, não recebia ninguém em nome do marido.
Mas Branca não se deu por satisfeita.
- É muito tempo pra esperar!
Então ela contou seus planos à amiga. O garoto, Zequinha, que espiava atrás da porta, não resistiu. Deu um salto e gritou:
- Eba, vamos ter escola! Mamãe, eu quero estudar com a tia Branca!
Já no dia seguinte, Branca começou a visitar as casas dos empregados da fazenda e avisar que estava montando uma escola por sua conta, e que iria ensinar a todas as crianças em idade escolar a ler, escrever, fazer contas e muito mais! Foi à cidade, comprou um quadro-negro, uma caixa de giz, apagadores, livros, cadernos, estojos com lápis e borracha e também mantimentos para fazer sopa para os alunos.
- Eles vêm, estudam e já vão pra casa alimentados – disse ela entusiasmada com a possibilidade de resolver também esse outro grande problema: a fome e a miséria às quais todas aquelas famílias eram submetidas. Estava contando as semanas, os dias, as horas e os minutos para o começo do ano letivo! As aulas aconteceriam na varanda dos fundos de sua casa, onde ficava o fogão a lenha.
Seus pais a apoiaram, mas estavam cautelosos. Eles tinham medo da reação do patrão quando ele retornasse.
A patroa, dona Carmem, ao saber da ideia por Zuleide, a apoiou, mas deu o alerta:
- Não sei se o Dutra vai gostar disso não...
E realmente não gostou. Ele odiou!
No mesmo dia de sua chegada, ao ver Zequinha todo saltitante chegando em casa depois do meio-dia com um caderno debaixo do braço e um estojo escolar, chamou Zuleide imediatamente.
- Esse moleque tá estudando, é?
De cabeça baixa, a empregada fez que “sim”.
- Eu não quero filho de gente minha estudando em escola de fazenda vizinha!
- Não é na fazenda vizinha não. É a filha do González que voltou e resolveu dar aula pra criançada daqui.
O homem ficou lívido! Seus olhos se esbugalharam de tal modo que pareciam que iam lhe saltar da cara e sair rolando pelo chão.
- Ah, então a mocinha mal chegou e resolveu dar aula? RESOLVEU, É? E com ordem de quem?
Àquela altura Zequinha, ligeirinho como sempre, já havia se espirrado lá pra dentro.
- De ninguém, patrão. Ela se formou em professora, né? Professores querem ensinar o que aprenderam e ela voltou pra morar com os pais, então...
- Então que vá embora outra vez! Que vá dar suas aulas na cidade de onde ela nem devia ter voltado! Nas minhas terras não! Aqui quem manda sou eu!
Dizendo isso, ele saiu da sala pisando duro e foi tomar satisfações com sua pobre esposa.
O Coronel Fontes Dutra era o mais retrógrado e intransigente de todos os coronéis do cacau que viviam na região. Ele era contra seus empregados e também os filhos destes estudarem, porque temia que eles o abandonassem e fossem em busca de seus “castelos” na cidade grande – assim ele dizia.
À tardinha mandou chamar Branca e “descascou-a” com a rudeza que lhe era própria.
- Está terminantemente proibida de dar aulas nas minhas terras! Se quiser seguir carreira de professora, procure outro lugar. Aqui tem trabalho pra você, mas é na lavoura ou então na cozinha, porque a Zuleide está precisando de ajuda!
A jovem chegou em casa chorando e foi consolada pela mãe:
- É melhor mesmo você voltar pra cidade, Branca. Nós vamos sentir muita saudade, você é nossa única filha. Mas nós te criamos pra você ter um futuro melhor que o nosso. Vai ser feliz na cidade grande!
Enxugando as lágrimas, Branca respirou fundo e encarou a mãe:
- Não posso dar aulas nas terras dele. Foi isso que ele disse. Pois muito bem. Não vou desobedecer!
Jacira percebeu que a filha não ia desistir tão facilmente de seus planos e contou ao marido assim que este chegou da plantação.
- Ela é das minhas, ela é guerreira, mulher! Não vai desistir e eu tô com ela! – disse González.
No dia seguinte, ela pediu ao pai que lhe fizesse uma jangada bem grande e não quis contar o motivo. Mesmo curioso e sem entender nada, ele a atendeu de pronto e com a ajuda de uns amigos, construiu a tal jangada.
E foi assim que nasceu, justamente naquele ano de 1964, pelas mãos de Branca De La Luna, a “Escola-jangada”, que todas as manhãs cruzava o rio que banha toda aquela região. Como as águas dos rios não pertencem a fazendeiro nenhum, o Coronel Fontes Dutra não podia proibi-la de dar as aulas. A princípio ele até tentou. Mas teve que engolir a seco quando ouviu aquela “mocinha atrevida” repetir suas próprias palavras: “Está terminantemente proibida de dar aulas nas minhas terras” e em seguida completar: “não estou dando aulas nas suas terras, mas sim nas águas que não pertencem a coronel algum!”.
Ele pensou em proibir seus empregados de deixarem seus filhos estudarem “naquela maldita jangada”, mas caso desobedecessem, tal proibição poderia causar uma demissão em massa em plena época de colheita – caso contrário, eles lhe perderiam todo respeito e ele viraria “a chacota de todos, o patrão que manda e ninguém obedece”.
O grande problema era que em épocas de chuva não havia aula, causando um grande atraso na educação daquelas crianças.
Branca tinha um carinho especial por Zequinha, que em casa, era sempre vítima das implicâncias do patrão. Mas sua pior inimiga ainda estava por chegar. Vilma, a mulher contratada para ajudar Zuleide nos serviços de casa e na cozinha, tinha inveja do carinho com o qual a patroa tratava a antiga funcionária. Sempre que ia à cidade e precisava de companhia, era Zuleide que dona Carmem chamava. Zequinha também tinha alguns privilégios: sempre ganhava presentes e doces da dona da casa.
Um dia, Vilma resolveu se vingar e ao limpar o quarto de dona Carmem, resolveu mexer em sua caixa de joias. Pegou um anel de esmeralda e o escondeu no bolso de seu avental. Na primeira oportunidade, o colocou no estojo escolar de Zequinha.
Acusado de roubo pelos patrões de sua mãe perante a “prova” do “crime”, o menino foi se refugiar na casa de Branca, que o acolheu, com o apoio dos pais e comprou essa briga, enfrentando os poderosos para defender o aluno que ela conhecia muito bem e sabia ser incapaz de furtar um alfinete que fosse!
A “professorinha da escola-jangada” não sossegou enquanto não solucionou a questão, provando a inocência do menino.
Vilma foi demitida e Zuleide, a pedido de dona Carmem, acabou promovida a governanta da casa. O assunto foi abafado, mas Branca nunca engoliu a história.
Os anos se passaram. Branca levou aquela turma de alunos da primeira até a quarta série primária e depois vieram outros e mais outros. Com muito custo, ela convenceu o patrão a permitir que as aulas fossem dadas na varanda de sua casa em tempos de chuva.
Zequinha sonhava em ser médico. Branca o ajudou, encaminhando-o à sua madrinha, que cuidou dos estudos do menino na cidade. Ele voltou com o diploma e se tornou um exemplo para os filhos dos empregados da fazenda Joia Verde. Sua mãe então, não cabia em si de felicidade e gratidão à sua querida amiga “Branquinha”, que acabou realizando os sonhos de muitos de seus alunos – não somente o de Zequinha – ou melhor, Doutor José Carlos da Silva, o médico responsável pelo posto de saúde do vilarejo próximo àquelas fazendas.
O filho único do coronel Dutra não se importava com a fazenda. Vivia na cidade com a esposa e os filhos. Um dia, porém, numa de suas raras visitas aos pais, ele percebeu que seu filho mais velho, Marcos, se interessava por aquelas terras e pelos assuntos da fazenda. Quando cresceu, com os avós já falecidos, Marcos assumiu a direção da Joia Verde, com a colaboração de sua irmã, Sandra, que havia se formado professora.
Branca de La Luna ainda dava aulas, na antiga varanda de sua casa – transformada em sala de aula – e às vezes na jangada. Marcos teve uma conversa com ela e prometeu que a fazenda teria uma escola muito em breve.
Bem, não foi tão “em breve” assim, mas o dia finalmente chegou. Marcos Dutra cedeu um bom pedaço de chão de sua propriedade à prefeitura local, e acrescentando verba de seu próprio bolso, viabilizou a construção e inauguração da primeira escola da fazenda que herdara de seus antepassados. Branca, ao saber que a escola levaria seu nome, não conseguiu segurar a emoção e as lágrimas de felicidade.
Aos 77 anos, Branca já está aposentada nessa manhã de sol em que a “filha da lua” brilha mais do que nunca e vive uma nova e indescritível emoção ao ver sua neta Dandara, filha mais velha de sua única filha Fabrícia de La Luna Costa Gonzalez – fruto de um rápido relacionamento que tivera com um turista – ler sua história no palco da escola que leva seu nome. Sorridentes e aplaudindo mais do que qualquer outra pessoa, estão os irmãos menores de Dandara: Luan e Maya. Abigail, esposa de Marcos, será a diretora, sua irmã Sandra será a bibliotecária e uma das professoras será Fabrícia que, orgulhosamente se dispõe a continuar o legado de sua mãe e espalhar para todo o Brasil – e, se possível, para o mundo inteiro – a história de lutas e heroísmos dessa guerreira nordestina que é a Professora Branca de La Luna.
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Parabéns pelo texto, Elisa. Fiquei encantada com esta história desde a primeira vez que a li.
ResponderExcluirObrigada, Ilma! E eu me senti muito feliz e honrada em participar desse lindo projeto de vocês! Beijos, gratidão!
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