Aqui postarei alguns de meus melhores contos, tanto de antologias das quais participei quanto de meus livros. Se você gosta de literatura, fica aqui o meu convite para conhecer alguns "desses contos que eu te conto".

sábado, 26 de julho de 2025

Seis Cartas Para O Papai Noel


Conto escrito para a antologia "Contos Natalinos", de 2023/2024


Alice era uma garotinha de apenas 9 anos, mas já vivia sobrecarregada com muitas tarefas e afazeres que deveriam ser realizados por um adulto. Alice não estava na escola e se sentia muito triste por isso.
Seu pai falecera um ano antes, e ela fora obrigada a parar de estudar para ajudar em casa, já que sua mãe passava os dias, de segunda a sábado (e às vezes até mesmo aos domingos!) fazendo faxina em casas de diversas pessoas para sustentar a família. 

Sendo a mais velha dos cinco irmãos, Alice cozinhava, lavava, passava, limpava a casa, fazia compras no mercadinho da esquina e na padaria e cuidava dos irmãos menores: Marina, de 3 anos e Paulinho, de apenas 1 ano e meio. Os outros dois eram Fabiano, de 7 anos e Arthur, de 5. Eles eram os únicos a frequentar a escola.
Um dia, ao final daquele ano, Alice foi ao mercadinho comprar feijão, pois havia acabado. Ela precisava fazer o almoço a tempo para que seus irmãos estudantes pudessem ir de barriguinha cheia para a escola, afinal, nem sempre havia merenda gratuita e quando havia, não era das melhores! Na volta para casa, ela foi observando os enfeites de Natal nas ruas e sentindo uma enorme tristeza, porque sua família, mais uma vez, não poderia celebrar a data. 
Já na porta de entrada de sua casa, ela teve uma ideia. E assim que terminou suas tarefas e enviou seus irmãos para a escola (que ficava a três casas da sua, na mesma calçada), pegando Paulinho no colo, e dando a mão à Marina, Alice foi até a casa da Professora Laurinda, ex-diretora da escola, que havia recentemente se aposentado. 
Dona Laurinda era muito amiga de Alice, desde os tempos que ela frequentava a escola. Sempre ajudou as famílias necessitadas e incentivou os alunos nos seus estudos. Como sempre, a menina e seus irmãozinhos menores foram muito bem recebidos e já de cara ganharam biscoitos. 
- Mas me diz, minha menina. Em que eu posso te ajudar?
- Sabe o que é, Professora? Está chegando o Natal e eu estou muito triste, porque no ano passado, depois que o papai morreu, nosso Natal foi muito ruim, sabe? Nós não ganhamos presentes e mal tivemos arroz com feijão pra comer. Eu acho que o Papai Noel era amigo do meu pai, porque ele agora se esqueceu de nós. E eu não quero que ele esqueça de novo. Então esse ano quero escrever pra ele seis cartinhas. Uma vai ser minha e as outras dos meus quatro irmãos e também uma da minha mãe. Mas eu não quero que ela saiba. Eu não sei escrever direito e eu queria seis cartinhas bem bonitas pro Papai Noel. A senhora escreve as cartas pra mim, por favor?
Diante de tão tocante pedido, e dos olhinhos esperançosos da menina, Dona Laurinda não pôde dizer “não”.
- Está bem, querida. Me diga o que cada um quer ganhar e eu escrevo as cartinhas.
E assim, Alice explicou cada um dos pedidos que iriam em cada uma das seis cartas: para sua mãe um agasalho novo, porque quando chegava o frio, ela tinha que ir trabalhar sempre com o mesmo agasalho, que já estava rasgando e, no dia que ela o lavava, ia trabalhar com frio, por não ter outro. Para Fabiano, que estava no segundo ano do ensino fundamental, ela pedia um caderno e estojo com lápis, borracha e apontador e se possível, uma bola, porque ele vivia brincando com bolas de meia, e adorava jogar futebol. Para Arthur ela pedia um barquinho de brinquedo, porque ele vivia rasgando folhas do caderno da escola para fazer barquinhos de papel. Para Marina, ela pedia uma “bonequinha de laço de fita”, que era o sonho da irmãzinha. Para Paulinho ela pedia um trenzinho de puxar porque ele vivia puxando latinhas que a mãe havia unido com um barbante para fingir de trenzinho. E finalmente, para ela, um livro de “Alice no País das Maravilhas”. Ela havia ouvido a história aos seis anos, no primeiro ano, e nunca mais se esquecera das aventuras de sua xará famosa. Mas Alice também tinha outro pedido, o mais importante de todos para ela:
- Eu também quero muito voltar para a escola, Professora. Escreve isso também na minha cartinha? Pede ao Papai Noel pra dar um jeitinho de me fazer voltar a estudar?
Quando a menina saiu, carregando seus dois irmãos pequenos, Dona Laurinda não conteve as lágrimas. E naquele momento, decidiu que iria ajudar Alice e sua família, agora mais do que nunca! Viúva e com problemas de saúde, ela não teria condições de comprar todos os presentes. Então resolveu ir pedir ajuda a cinco amigos com situação financeira estável e que, ela tinha certeza, não recusariam seu pedido. 
Naquela mesma tarde a boa ex-diretora visitou cinco casas, pedindo que cada pessoa escrevesse uma cartinha ao Papai Noel, ficando ela com a de Alice. Mas por que ela mesma não as escreveu ou não pediu simplesmente os presentes? A resposta é simples: Ela queria sensibilizar ao máximo as pessoas para que o gesto delas não fosse apenas um favor prestado a uma amiga, mas um ato de amor e compaixão por essas pessoas e o sincero desejo de fazer o Natal delas mais feliz.
Assim foi feito. Cada uma das pessoas procuradas por Dona Laurinda escreveu a cartinha e de maneira espontânea, manifestou o desejo de doar o presente que estava sendo pedido ao Papai Noel.
Chegou a véspera de Natal. Dona Laurinda convidou a família de Alice, inclusive sua mãe, dona Lêda, para um lanche à tarde. Enquanto isso, seus amigos, preparavam uma surpresa, combinada previamente com a ex-diretora.
Ao chegarem em casa, eles levaram um susto tão grande, a ponto de pensar que tivessem errado de casa! Uma árvore de Natal estava montada a um canto e em volta dela havia seis embrulhos de presentes. Na mesa, havia uma ceia com peru, arroz de forno, maionese, farofa, panetone, rabanadas, nozes, castanhas, doce de figo, frutas e refrigerantes.
Emocionados e maravilhados, os integrantes daquela família não paravam de se abraçar! As crianças correram para abrir os presentes e lá estavam a bola e o material escolar de Fabiano, o barco a pilha de Arthur, a boneca de laço de fita de Marina, que de tão perfeita parecia um bebê de verdade, o trenzinho também movido à pilha de Paulinho, o livro com a história “Alice do País das Maravilhas” pedido pela protagonista de nossa história, numa versão ilustrada tão linda que as figuras até brilhavam!
Mas a maior surpresa ainda estava por vir: quando dona Lêda abriu o seu presente, lá estava um belo agasalho de lã e um envelope. Dentro dele havia o equivalente ao valor mensal de pelo menos três faxinas semanais (R$1000,00), e um bilhete dizendo que ela receberia esta quantia todos os meses até conseguir um trabalho fixo e melhor remunerado. A condição era que todas as crianças em idade escolar, estudassem.
A boa senhora, chorando, emocionada, ergueu as mãos para o céu em gratidão e em seguida, fez um sinal para que sua filha mais velha se aproximasse. Conhecendo bem a esperteza da menina, perguntou:
- Alice, isso aqui tem dedo seu, né?
- Meu não. Do Papai Noel. Eu só pedi à professora Laurinda pra escrever seis cartinhas pra ele e pelo visto ele recebeu, mamãe! O Papai Noel esse ano se lembrou de nós!

 

sábado, 19 de julho de 2025

A Colecionadora de Sapatos

 


Esse conto faz parte do meu livro "Esses Contos Que Eu Te Conto - VIDAS Vol 1", de 2023.

Juliette desceu as escadas pensando em deixar um de seus sapatos – na verdade tênis – para trás, com a esperança de que algum príncipe a seguisse e pegasse o calçado propositalmente abandonado, para depois, ao reencontrá-la e experimentá-lo em seu pé, pedir sua mãozinha em casamento e levá-la para morar com ele em seu castelo, onde seriam felizes para sempre.
Mas ela apenas pensou nisso, evidentemente não o fez. Continuou seu caminho, rindo da ideia infantil que lhe passara pela cabeça.
Juliette não era uma menininha de sete anos, era uma mulher de quase trinta. Desde criança, era fascinada pela história da Cinderela, mas ainda não havia encontrado seu príncipe encantado e àquela altura de sua vida já nem procurava mais por ele.
Apaixonada por sapatos também desde criança, Juliette nutria por sua falecida mãe um misto de orgulho e vergonha.
Gabrielle Lamaire havia sido uma bela modelo francesa, de 1 m e 78 cm de altura, impressionantes olhos azuis e longos cabelos pretos e lisos. Chegou a desfilar para a Chanel. É verdade que foram apenas duas vezes, mas o fato é que ela cruzou as passarelas usando um vestido de festa e um biquíni
da famosa grife, na Paris dos anos 60. Ela tinha tudo para tornar-se famosa, mas um acidente de carro destruiu seus sonhos de uma carreira duradoura e repleta de sucesso, fortuna e glamour.
Gabrielle sofreu uma horrível fratura em sua perna durante o acidente, que a deixou por mais de um mês hospitalizada e por quase um ano com a perna imobilizada. Depois disso, foi mais um ano e meio de fisioterapia, e só então ela voltou a andar – mas mancando.
Com dificuldades financeiras, após a morte de seu pai e a ida de sua mãe para um manicômio com sérios problemas mentais adquiridos devido ao alcoolismo não tratado, a ex-modelo resolveu, aos 23 anos de idade, vir morar com uma tia que vivia no Brasil já por mais de uma década.
No Rio de Janeiro, onde morava com a tia e seu marido brasileiro, Gabrielle conheceu Paulão, com quem viveu um tórrido romance de uns seis meses. Engravidou. Ao saber da novidade, ele a deixou, indo logo em seguida morar na Bahia. Felizmente, tia Celine compadeceu-se da jovem e a amparou durante a gravidez e o nascimento de Juliette.
Após a morte dos tios, que não tinham filhos, Gabrielle herdou a casa, mas precisou trabalhar para sustentar a si mesma e sua filha, que estava com nove anos de idade na época.
A ex-modelo francesa então trabalhou como babá, balconista e empregada doméstica. Desiludida com os homens, rejeitava qualquer pretendente. Conseguiu que Juliette concluísse o ensino fundamental, mas contraiu diabetes e foi ficando cada vez mais debilitada, e para piorar, se recusava a parar de comer massas e doces. “Já não tenho diverrrsão nenhuma na vida, não vou abrrrirrr mão de comerrr o que gosto”, dizia ela com seu sotaque bastante carregado.
Juliette, aos quinze anos, teve que parar de estudar para trabalhar e acabou seguindo o mesmo destino da mãe: o de empregada doméstica.
Gabrielle, após vender sua casa, faleceu aos cinquenta e poucos anos devido a complicações de sua diabetes. Nunca ouvira os conselhos e apelos da filha e de amigos para que levasse seu tratamento a sério e seguisse a dieta receitada pelos médicos.

***

Assim, encontramos Juliette nos anos 90, dois anos depois da morte de sua mãe, indo para casa após um longo dia de trabalho. Tendo descido quatro andares de escada – devido à manutenção dos dois elevadores – no prédio onde trabalhava como doméstica na Barra da Tijuca, ela atravessou a rua e pegou o ônibus lotado.
Depois de mais de uma hora balançando-se de pé, suspirando e suando no trânsito engarrafado, chegou em casa: um apartamentinho de quarto e sala nas Laranjeiras, que dividia com uma amiga – Juliette, que pagava a menor parte do aluguel, dormia na sala e tinha uma cômoda com suas roupas no quarto da amiga. Num móvel multiuso de duas portas que ficava na sala ao lado do sofá-cama onde dormia, estava o seu tesouro: enfileirados nas prateleiras, sapatos, sandálias e botas de todos os modelos, marcas e cores faziam brilhar os olhos castanhos da moça.
Nas revistas de moda que colecionava, o que mais chamava sua atenção eram os sapatos. Sempre eles. Seu salário ia embora rapidamente, porque ela comprava pelo menos um calçado lindo e chiquérrimo por mês, muitas vezes ficava pagando prestações intermináveis. Quase nunca os usava e pouco se importava se eles saíssem de moda. Gostava de limpá-los e ficar horas olhando para eles, imaginando-se nas festas badaladas da alta sociedade carioca, ostentando-os e sendo invejada pelas socialites, ou desfilando com eles em seus pés miúdos, nas passarelas francesas como sua mãe fizera em duas preciosas oportunidades. Em meio a
várias marcas nacionais, ela orgulhava-se de ter em sua coleção um belíssimo Prada vermelho de salto fino e altíssimo e um Gucci preto de salto grosso.
À noitinha, ao chegar, tirou os tênis surrados e antes mesmo de tomar seu banho ou jantar, resolveu calçar o precioso e caríssimo Prada, do qual acabara de pagar a oitava prestação (ainda faltavam três). Tirou o par de sapatos da prateleira com todo cuidado e beijou-os, calçando-os em seguida bem devagar, com carinho, a mente viajando em seus sonhos de glamour. Caminhando como se estivesse desfilando em Paris, foi até o espelho do quarto da amiga e ficou fazendo pose e admirando sua figura, de calça jeans, camiseta de malha e... um par de sapatos Prada vermelhos nos pés!
Embora não tivesse a beleza estonteante e a elegância da mãe, ela não era nada feia! Herdara os olhos castanhos e penetrantes do pai, mas os cabelos pretos e lisos, a pele clara, o nariz fino e imponente e o sorriso largo de dentes bem feitos eram iguaizinhos aos da mãe.
Depois de mais ou menos meia hora, Juliette voltou à realidade, tirou os sapatos e foi correndo guardá-los antes que a amiga, também empregada doméstica, chegasse e começasse a debochar de seus “sonhos de Cinderela”. Pegou na parte superior da geladeira o pote com estrogonofe que havia deixado pronto na véspera, despejou-o numa panelinha e levou-o ao fogão para descongelar, correndo em seguida para o chuveiro. Enquanto a água caía por seu corpo cansado, ela ouviu a chave rodar na fechadura da porta da sala. Era sua amiga, Mayara, que estava chegando.
Mayara era uma “mulata sacudida” – como gostava de referir-se a si mesma – de 26 anos, superalegre e de bem com a vida, que tirara de letra o fim do namoro – que ela decidiu terminar – de cinco anos com “aquele ciumento do Juca”. Tinha um sorriso fácil e um coração enorme. Mas gostava de fazer piadas com a “mania de grandeza” da amiga franco-brasileira. Juliette gostava muito dela, era a irmã que queria ter tido. Agora ela iria sair do banho, as duas amigas iriam sentar-se na pequena mesa da cozinha, jantar o estrogonofe com o arroz e a batata palha comprada no mercado da esquina, e contar uma à outra como foi o dia, o que as patroas fizeram e disseram, e depois, assistir juntas à novela das sete, o telejornal e a novela das oito.

***

De madrugada, Juliette sonhou que estava num baile, dançando com o príncipe e usando o sapato
Prada vermelho de sua coleção. De repente, soaram as doze badaladas da meia-noite e ela saiu correndo, mas tropeçou na barra do vestido e rolou escada abaixo. Ao olhar para os pés não viu sapato nenhum e sim o tênis que costumava usar no dia-a- dia. Mas nisso ela já estava acordando, confusa, entre o sonho e a vida real. Abriu os olhos e viu que estava confortavelmente deitada em seu sofá-cama. Riu de si mesma e olhou o relógio em seu pulso: eram 6 horas e 10 minutos, hora de preparar-se para mais um dia de trabalho. Ouviu o chuveiro sendo ligado. Era Mayara no banho. A realidade impunha-se, brutal, insensível.

***

Naquela noite, ao chegar do trabalho, ela deu com Mayara já em casa e não escondeu sua felicidade:
- Eles me convidaram, eles me convidaram!
- Do que você está falando, mulher? – perguntou a amiga sem entender nada.
- Os Fonseca, meus patrões, ué! Me convidaram para as bodas de prata deles! Vai ser uma festança, só vai gente rica e importante e eu vou estar lá! Quero que você vá comigo!
- Eu não! Não curto essas festas de gente grã- fina, cheia de frescuras...
- Ah, vamos May, por favor... Eu não quero ir sozinha...
Insistiu, insistiu, insistiu...
Mayra, para encerrar o assunto, disse:
- Vou pensar e te falo. Quando é a festa?
- Daqui a três semanas.
- Uns dias antes te conto o que decidi.
Mas Mayara não iria coisa nenhuma. Ela gostava mesmo era dos pagodes com amigos e das festas na quadra da escola de samba de seu coração. Festa de rico? “A gente nem pode comer direito, tem que ficar toda cheia de dedos, um monte de etiqueta que não entendo. Ah, não! Eu não fico à vontade”, dizia ela sobre esse tipo de comemoração.
Os dias e as semanas se passaram sem que Juliette conseguisse pensar em outra coisa. Mandou fazer um vestido cinza com detalhes em vermelho que copiou de uma revista “chique” de moda. Ia usar seu sapato favorito, o Prada, pela primeira vez. Já tinha marcado cabeleireiro, manicure e maquiagem. Estava nas nuvens. Caiu delas três dias antes da festa quando Mayara disse que não iria e que não adiantava insistir. Ficou triste, mas não desistiu. Iria sozinha mesmo e lá tentaria conversar com algum rapaz bonito que prestasse atenção nela.
Sim, porque ela estaria linda e certamente não passaria despercebida aos olhos de algum belo solteiro que estivesse no badalado clube.
Na noite da festa estava chovendo muito. MUITO MESMO. Era um sábado, e passava pouco das 20 horas quando seu taxi chegou.
- Você tá linda. Vai ser feliz, mulher! – disse Mayara na porta ao vê-la sair. Não era porque não gostava desse tipo de festa que ela iria desencorajar a amiga que tanta importância dava ao glamour.
Juliette abriu seu guarda-chuva prateado com fundo cor de vinho e foi caminhando pela rua em direção ao taxi. Difícil era andar usando aquele sapato com tantas poças d’água e uma chuva cada vez mais forte. Mas ela bravamente venceu o curto percurso – que lhe pareceu longuíssimo devido à chuvarada. Entrou no carro e falou o endereço para o motorista. Lá foi ela feliz da vida e se sentindo uma rainha.
Na chegada, a chuva estava ainda mais forte. Ela pagou ao taxista, e dispensando-o, desceu do carro, abrindo o guarda-chuva. Ele tivera que parar um pouco distante da entrada do clube por causa da imensa fila de carros que havia ali. Cada carrão mais lindo que o outro! Pertenciam certamente aos convidados da festa.
Juliette foi andando devagar, mas estava difícil caminhar. Entre a rua e a calçada, a água corria como se fosse um estreito rio, mas com uma correnteza assustadora. Como ela iria atravessar toda aquela água? Não podia desistir! Esticou a perna para dar o passo, mas mal seu pé direito tocou a água e esta levou o seu lindo sapato rua abaixo. Ela gritou e tentou correr em sua direção, mas era impossível. Ela não conseguia nem enxergar com toda aquela chuva. Juliette ficou desesperada. Como iria para a festa com apenas um pé de sapato? E se tentasse atravessar de novo aquela correnteza poderia perder o outro pé também. Não sabia o que fazer. Ficou ali por uns minutos, de guarda-chuva aberto, chorando como uma menina que perdeu a boneca. Foi aos poucos se afastando do clube, mancando com um pé de sapato alto e o outro descalço.
De repente pensou na mãe, que mancava devido ao acidente sofrido: “devia ser assim que ela se sentia”. Chorou mais. Quis morrer. Teve saudades da mãe e naquele momento só conseguiu sentir orgulho da mulher batalhadora que, mesmo tendo visto seus sonhos serem enterrados, levantou a cabeça e seguiu em frente, dando um duro danado para criar sua amada filha. “Perdoa eu, mãezinha, porque em certos momentos tive vergonha de você
porque você mancava, porque você foi abandonada pelo meu pai comigo na barriga, porque você era diabética e não se cuidava, porque você trabalhou como empregada doméstica depois de ter sido modelo em Paris, e porque eu acabei me tornando uma empregada também e não pude concluir os meus estudos. Mas agora só sinto orgulho de você. Você trabalhou pra me dar o melhor que pôde, você me ensinou a ser boa e honesta, você não tem culpa de ter sofrido aquele maldito acidente e nem de ter sido abandonada. Seu erro foi não se tratar quando ficou diabética, mas você também tem o direito de errar e eu não te condeno por isso. Tudo que eu queria era que você estivesse aqui pra eu poder te abraçar. E sabe de uma coisa? Eu até perdoaria meu pai se tivesse uma chance de conhecê-lo”. E foi aí que Juliette desabou de vez.
Ela entrou debaixo do toldo de um bar e sentando-se a uma das mesinhas, debruçou-se sobre ela e chorou copiosamente, até que um garçom veio perguntar se ela estava bem e se precisava de alguma coisa. Enxugando as lágrimas com as costas das mãos ela pediu um copo de vinho tinto, ao que o garçom atendeu prontamente, oferecendo-lhe também um lenço. Ela agradeceu e reparou que aquele garçom era bem bonito. Ele não conseguia tirar os olhos dela, mas talvez julgando tratar-se de alguma madame, com custo, ele baixou o olhar e, pedindo licença, se retirou para dentro do bar, indo atender outros fregueses. Cerca de uma hora depois ela pagou a conta e pediu ao mesmo garçom que lhe chamasse um taxi. Os seus olhares se cruzaram de novo, demoradamente. Ela leu e gravou na mente o nome do bar ao entrar no carro, que demorou poucos minutos a chegar. Iria voltar ali só por causa do garçom!
Já no apartamento, nem sinal de Mayara. Mas deu pra sentir seu perfume no ar. “Foi pro pagode!”. Juliette ficou surpresa ao perceber que não sentiu raiva da amiga por ter trocado a raríssima oportunidade de ir a uma “festa de grã-fino” em sua companhia pelo pagode que frequentava quase toda semana. Mais calma, tomou uma ducha quente, preparou um chá de hortelã e depois de tomá-lo, enfiou-se debaixo do seu cobertor. Ainda chorou mais um pouquinho antes de adormecer.

***

Na manhã do dia seguinte – diga-se de passagem, um belo domingo de sol – em Ipanema, bairro onde havia ocorrido a festa que Juliette perdera, uma menina de seus doze anos corria para perto de seu pai com um objeto na mão.
- Pai, olhe! Um sapato tão bonito! – disse ela com um sotaque baiano - Vamos procurar o outro pé pra gente vender, ele deve custar caro!
- Sapato usado não vale muito, princesa – respondeu o pai, um senhor de seus sessenta e poucos anos.
Ele fora entregar uma encomenda num prédio ali por perto e levara a filha junto com ele. Era marceneiro e artesão, e entregara uma cadeira de balanço daquelas antigas que consertara para um casal de idosos. A menina ainda olhou em volta, andou mais uns metros procurando o sapato e, sem encontrá-lo, resolveu levar o único pé que tinha nas mãos. Entrou na caminhonete do pai pensativa. Com o veículo já em movimento ela disse:
- Pai, vamos tentar achar a dona do sapato! Ela deve estar procurando por ele. Ontem choveu muito, o sapato deve ter saído do pé dela porque é de entrada rasa...
- Boa ideia, filha! Amanhã vou colocar um anúncio no jornal!
Ao chegarem ao Méier, bairro onde moravam havia um mês, ele parou a caminhonete em frente à garagem da casa alugada e foi abrir o portão. Nisso o vizinho cumprimentou-o:
- E aí seu Paulo! Muito trabalho já cedo? Era assim lá na Bahia também ou só na rede?
- Que rede nada! Eu trabalhava muito por lá também. E vocês têm que parar com essa mania de achar que baiano é vagabundo!
Paulo e sua filha Victória vieram para o Rio depois que a mãe da menina o deixou e seguiu com um milionário para o Paraná. Fazia pouco mais de um mês que haviam chegado e ele já havia conseguido muitos fregueses devido à propaganda publicada nos classificados dos jornais cariocas.

***

Na terça-feira saiu o anúncio sobre o sapato.
Nas Laranjeiras, as duas amigas desciam juntas para irem trabalhar. Mayara, que passara o domingo inteiro e parte da segunda-feira consolando a amiga pelo seu sonho destruído e o sapato perdido, não tirava os olhos do jornal, porque estava procurando outro emprego, pois não aguentava mais as frescuras da atual patroa. De repente ela deu um grito:
- Juliette, você não vai acreditar! Acharam o seu sapato, olha isso aqui!
Naquele dia Juliette não foi trabalhar. Ela pegou o ônibus para o Méier e foi direto ao endereço dado por “aquele senhor simpático” com quem tinha falado há pouco no telefone. Tocou a campainha. Veio atender uma garotinha igualmente simpática e com um sotaque baiano. Convidada a entrar e sentar-se, ela esperou menos de três minutos até que um senhor apareceu à porta e ficou paralisado ao vê-la.
Já estava com o sapato na mão e iria imediatamente entregá-lo, mas não deixaria aquela moça sair de sua casa sem perguntar a ela se era filha de uma francesa chamada Gabrielle Lamaire, da qual ele não tinha notícias havia muitos e muitos anos. Ele estava emocionado com a possibilidade de reparar um erro do passado, uma culpa que o perseguira por quase três décadas.
Não. Naquele momento Juliette não estava prestes a encontrar o príncipe de seus sonhos, mas sim o pai de sua vida real – e como bônus, uma meia-irmã que era um amor de menina, como ela mesma fora quando tinha aquela idade.


sábado, 12 de julho de 2025

A Canção dos Elfos

Conto escrito para a antologia "Reino da Fantasia", de 2023, aqui apresentado em sua versão original, estendida 


             O sol daquela bela tarde de domingo iluminava toda a floresta, fazendo com que Jordan se sentisse encantado e com uma enorme vontade de abandonar o asfalto para ir caminhar entre as árvores.

          - Seria maravilhoso se fosse verdadeira a lenda sobre a existência de um vale dos elfos nesta floresta – pensou, logo em seguida rindo de si mesmo.

          Não resistindo à deliciosa tentação, ele entrou na floresta, respirando aquele ar puro, admirando a beleza das árvores, ouvindo o alegre canto dos pássaros... Até que de repente, ouviu uma doce melodia, tão etérea e incomum que parecia ser entoada por anjos.

          Curioso e meio que hipnotizado, Jordan resolveu seguir o som daquelas vozes tão envolventes e agradáveis. Era uma canção tão linda, tão suave e angelical... Diria até quase divina! À medida em que andava e o som das vozes ficava cada vez mais alto e claro, o jovem ia sentindo uma enorme sensação de paz, quase um estado de êxtase.

          E por quase meia hora, Jordan continuou caminhando, seguindo aquela canção. Ia cada vez mais para dentro da floresta, até que começou a sentir um certo frio, e se deparou com uma névoa que o impedia de ver mais adiante. Assustado, ele parou. Com cautela, deu uns cinco passos para dentro da névoa e para sua surpresa viu que ela havia se dissipado completamente!

          Ele estava agora num lugar lindo e ensolarado, cheio de flores coloridas e perfumadas, e com uma belíssima cascata que formava um lago de águas transparentes. Em sua frente estavam três figuras de indizível beleza, sorriso cativante e orelhas pontudas. Eram um homem e duas mulheres.

          Jordan ficou boquiaberto. Mesmo já desconfiando de qual seria a resposta, ele perguntou:

          - Quem são vocês?

         - Somos elfos, seja bem-vindo ao nosso vale – respondeu o homem ruivo e alto  – Sou Surya, E essas são Chandra e Ananda..

          - Então não era só uma lenda, é real!

          - Sim! E já que está aqui, venha conhecer o nosso lar. Vamos dar um passeio pelo jardim.

          E assim foram caminhando e conversando. Jordan sentiu uma certa tensão nas vozes de Surya, Chandra e Ananda. Mas preferiu prestar atenção às belezas naturais que estavam diante de seus olhos.

          De repente, ouviu um gemido, que ficava cada vez mais alto. Eles se aproximaram, e diante de seus olhos surgiu um belo animal que parecia um unicórnio. Ele estava em grande sofrimento. 

          - Ele se feriu e não sabemos como. – disse Surya (o homem).

          - Ele só pode se curar se tomar um chá feito de uma erva que existe na floresta, a erva-santa do mato – explicou Chandra, a mulher loira de olhos violeta.

          - Mas nós não podemos sair do nosso vale encantado – completou Ananda, a morena de cabelos negros e olhos cor de mel.

          - Então eu posso pegar esta erva para vocês!

          Jordan não hesitou. Comovido com o sofrimento do animal, saiu correndo, atravessou a névoa e ganhou a floresta, rapidamente procurando pela erva, até que, finalmente a encontrou.

          Novamente correndo e arfando, fez o caminho de volta e entregou a erva aos elfos para que o chá fosse preparado, o que aconteceu sem demora.

          Chandra aproximou-se do belo unicórnio, mas então Surya a interrompeu, entregando a cumbuca com o chá a Jordan:

          - Não se esqueça de que o humano deve dar o chá ao unicórnio.

           Apesar da surpresa, Jordan não pestanejou. Ele amava a natureza e os animais. Queria salvar a vida daquele ser. Aproximou-se e derramou o líquido em sua boca com todo cuidado. Mas infelizmente era tarde demais. O animal já estava dando seu último suspiro. E foi aí que Jordan começou a chorar em desespero abraçado ao unicórnio, suas lágrimas banhando o rosto da bela criatura.

          Mas nesse momento, havia mais uma surpresa reservada para ele: o unicórnio, envolto em uma luz misteriosa, começou a ganhar a forma de um homem, ou melhor dizendo, um elfo do sexo masculino. Ele se parecia muito com Surya e era também ruivo de olhos verdes claros. 

          Ele se levantou e com um sorriso bondoso, disse:

          - Olá, meu jovem. Eu sou Prana. A humanidade estava condenada a ter seu fim em breve. Precisávamos de um único ato de compaixão para recuperarmos nossa fé no ser humano. Após uma reunião entre os principais representantes dos seres etéreos, dos quais, nós elfos fazemos parte, ficou decidido que deveríamos atrair com a nossa canção o primeiro humano que entrasse na floresta hoje e se ele fosse capaz de chorar pela vida de um animal, a humanidade teria uma nova chance. Você salvou a raça humana. Vá e dê o exemplo!

          E então, Jordan começou a sentir-se sonolento. A imagem dos quatro elfos que sorriam para ele foi ficando cada vez mais embaçada, até que ele acordou embaixo de uma frondosa árvore no meio da floresta.

          Ele tinha dúvidas se aquilo havido sido sonho ou realidade. Mas já sabia exatamente o que deveria fazer daquele momento em diante! Sorrindo, levantou-se e foi para sua casa, cheio de boas ideias e uma sensação de paz no coração.









sábado, 5 de julho de 2025

Contando as Estrelas

 


Esse conto faz parte do meu livro "Esses Contos Que Eu Te Conto - VIDAS Vol.1", de 2022.

A noite estava bastante estrelada e o Professor Lídio resolveu apreciar o espetáculo a olho nu. Ele estava tão habituado aos telescópios que às vezes se esquecia do quanto era belo o céu noturno visto assim, ao natural. Trabalhara o dia todo no Planetário do Ibirapuera, onde pesquisava, ensinava e guiava visitantes. Era o coordenador de diversos projetos para estudantes, um astrônomo muito respeitado em São Paulo, que já tinha dezoito anos de trabalho no famoso planetário. Amava sua profissão. Mas agora ele precisava de umas férias, que viriam a partir da semana seguinte.

Lídio tinha uma filha, Stella, de 13 anos. Ele ficara viúvo quando a menina tinha apenas quatro, e nunca mais quisera se casar. Dedicara-se à criação da filha, ao seu trabalho e à sua outra paixão, que de maneira indireta e extraoficial, não deixava de ter certa relação com sua carreira de astrônomo: a ufologia.

Já era noite quando ele estacionou seu carro na garagem do prédio em que vivia com a filha, no bairro Vila Mariana. Assim que entrou em casa, a menina veio correndo abraçar o pai. Ela o estava esperando para a janta - não gostava de jantar sem ele – e Maria, a empregada, já estava impaciente, doida para ir embora, pois também tinha filhos que esperavam por ela.

- Tchau, seu Lídio, tô indo. Amanhã tô de volta. A janta já tá esperando o senhor e a Stella na mesa. Fui.

E assim, Maria foi. Sempre apressada para pegar seu ônibus, a essa hora lotado e com muito engarrafamento pela frente!

Stella ia bem na escola. Cursava o oitavo ano do ensino fundamental e nunca havia sido reprovada. Ela era inteligentíssima e um tanto calada para uma menina da sua idade. Sua maior paixão era a mesma de seu pai: as estrelas. Desde pequena, ela adorava ir à noite para o Parque do Ibirapuera. Enquanto esperava por seu pai, ela se sentava na grama e ficava contando as estrelas. Muitas vezes ouviu de Maria, que além de empregada da casa, era sua babá desde o falecimento de sua mãe, Léa: “Não fica contando estrelas, menina. Não pode apontar pra elas, porque dá verruga nos dedos!” Bom, Stella nunca teve nenhuma verruga e continuava contando estrelas. Lídio gostava de ensinar à filha sobre elas. Falava dos nomes das constelações, suas origens, as lendas e mitologias que lhes deram esses nomes... Contava sobre os astros errantes como os cometas, e sobre a nossa galáxia, a Via Láctea, assim como sua vizinha, Andrômeda, cujo nome se refere a uma princesa da mitologia grega, salva pelo herói Perseu de ser devorada por um monstro marinho. O professor era tão fascinado por essa constelação, que dera o nome de Andrômeda a uma cadelinha maltesa que ganhara de um amigo da faculdade, falecida no ano anterior, aos 18 anos, por motivo de velhice. Stella a adorava e a chamava de “Donda” porque, quando pequena, não conseguia pronunciar esse nome tão complicado.

E então, naquela noite, durante o jantar, pai e filha conversaram sobre a viagem que fariam na próxima semana, já que Stella também estaria de férias escolares. Eles iriam passar duas semanas em Peruíbe, no litoral do estado, onde Lídio participaria de um encontro de ufólogos. Ele tinha uma casa de praia, que adquirira há alguns anos, naquela cidade, e desde então, sempre que tinha uma folguinha do trabalho, ou mesmo em finais de semana, ia para lá com Stella e – até um ano antes – Andrômeda.

***

Chegou o grande dia! Lá foram os dois amantes das estrelas para Peruíbe, uma viagem relativamente curta de carro, cerca de uma hora e meia, pouco mais que isso. A cidade praiana era famosa pela grande incidência de OVNIs ou UFOs, paraíso dos discos voadores.

Já na casa, Lídio foi desfazer as malas e Stella foi ver o mar de perto, uma de suas grandes paixões - além de seu pai, as estrelas, Luan Santana, Bruno Mars, Robert Pattinson, Katy Perry e... bom, esse é um outro assunto.

Stella, ao contrário da maioria de suas colegas de escola, não tinha nenhum namorado, “ficante” ou paquera. Ela guardava a sete chaves um segredo que nunca se atrevera a contar a ninguém: ela era apaixonada por Alberto, seu professor de geografia, que para piorar ainda mais sua situação, era muito amigo de seu pai.

Stella não tinha coragem de se abrir sobre essas coisas íntimas. Aliás, havia muitas coisas sobre seu mundo particular que ela nunca revelara nem mesmo a seu pai, a pessoa que mais a conhecia neste planeta, em quem ela mais confiava e com quem mais se abria. Mas o “se abrir” de Stella era bem relativo. Às vezes ela parecia uma ostra, fechadinha, fechadinha. Ela não se abria nem para a Doutora Amanda, sua psicóloga, que dois anos antes, a diagnosticara com síndrome de Asperger, um tipo leve de autismo.

 Já estava anoitecendo, então Stella ficou feliz porque poderia ver ao mesmo tempo o mar e as estrelas. Lídio iria ao seu encontro pouco depois.

Stella passeou na beira da praia, molhando os pés e depois se sentou numa pedra e ficou olhando para o céu. Logo começou a contar as estrelas.

- Vinte e uma, vinte e duas...

E foi aí que ela ouviu uma voz falando bem próximo ao seu ouvido:

- 23, 24, 25...

Ela se assustou, porque não era a voz de seu pai. Parecia a voz de uma criança ou um adolescente de sua idade. Pulou da pedra e antes que pudesse gritar, o dono da voz se aproximou devagarzinho e disse:

- Não fique com medo. Quero ser seu amigo. Eu também gosto de contar as estrelas.

Era um garoto magro, alto e muito bonito. Ele tinha longos cabelos loiros com cachos largos e os olhos de um azul brilhante que deixou Stella impressionada.

- Você parece um anjo! – ela disse sentando-se novamente na pedra.

- Eu não sou anjo, mas pode me chamar de Gabriel.

Ele sentou-se ao lado dela e começaram a contar as estrelas juntos. Ela compartilhou com ele o conhecimento sobre as constelações que havia aprendido com seu pai astrônomo e ele ouviu atento.

- Qual é a sua estrela favorita? – perguntou Gabriel de repente.

- Estrela favorita... Eu nunca pensei sobre isso. Acho que não tenho uma estrela favorita – respondeu Stella.

- Não seria o Sol que aquece este planeta?

- Boa resposta. Acho que a minha estrela favorita é o nosso Sol. Eu amo o Sol tanto quanto amo as estrelas e a lua também.

- Você já se imaginou indo à lua?

- Eu já. Eu já quis ser astronauta.

- Você já pensou em ir à lua sem ser astronauta?

- Como? – ela perguntou curiosa e intrigada.

Mas Gabriel não respondeu. Ficou parado olhando o céu.

- Deixa pra lá – ele disse, depois de uma longa pausa.

- Às vezes eu queria morar na lua – disse Stella descendo da pedra e indo caminhar até a areia.

Gabriel a acompanhou.

- Por quê?

 - Porque eu acho que meu lugar é lá. Aqui na Terra é muita loucura, muita informação. Acho que na lua eu poderia ter mais paz e ser eu mesma.

- Você não pode ser você mesma na Terra?

- Na minha casa, com meu pai e a Maria eu até consigo, quase sempre. Mas na escola, com outras pessoas, fico sempre tentando me encaixar. É muito difícil pra mim. As pessoas me acham esquisita. Quase ninguém da minha classe fala comigo. Mas eu não ligaria, desde que ele falasse comigo...

Stella se calou de repente. Sentiu que falara demais. Ela, que era tão calada quando estava na sala de aula ou no recreio da sua escola.

- Ele? – quis saber Gabriel.

Stella se sentou na areia. Depois se deitou e ficou calada olhando o céu.

Gabriel se aproximou devagar e também se deitou, ao lado dela.

- Meu pai tá demorando – ela finalmente falou.

- Seu pai virá aqui?

- Ele ficou de vir. – disse ela olhando em volta, procurando pelo pai.

- Seu pai é uma pessoa interessante.

- Como você sabe?

- Todo astrônomo é interessante – respondeu Gabriel com um sorriso enigmático.

 - Olha ele lá! – e ela deu um salto e já ia correr em direção ao pai, que vinha caminhando calmamente pelo calçadão. Gabriel se levantou e já ia se afastando, mas Stella gritou:

- Gabriel! – ele se virou enquanto ela continuava: - Te vejo amanhã aqui nesse mesmo horário?

Gabriel deu um sorriso largo e com um gesto de cabeça fez que “sim”. Acenaram um para o outro e seguiram em direções opostas. Stella reparou que Gabriel parecia seguir em direção ao mar. Mas voltou sua atenção para o pai, que já estava bem perto, e então ela caminhou para ele.

- Demorei porque estava em uma ligação com o Joel – disse ele abraçando a filha carinhosamente - Nosso encontro esse ano vai ser ótimo!

- Por que, pai?

- Porque o avistamento de OVNIs cresceu muito do último encontro pra cá. É impressionante! As naves estão agindo como se quisessem se comunicar! Será que a humanidade está preparada?

- Não sei, mas eu estou!

- Você não é deste mundo, minha filha!

Ela riu e piscou o olho, puxando o pai para mais perto do mar. Ficaram por ali, conversando, caminhando e olhando as estrelas. Depois foram a uma pizzaria.

No dia seguinte: praia de manhã, almoço em casa, cinema à tarde, e quase ao anoitecer Lídio receberia alguns amigos ufólogos em sua casa.

Stella procurou por Gabriel pelas redondezas naquela tarde, mas não o encontrou.

À noite, porém, ela novamente foi sozinha até a praia, enquanto seu pai montava o telescópio no terraço e preparava o jantar para ele, Stella e os amigos, que acabaram resolvendo ficar e provar sua lasanha quatro queijos.

Stella não se decepcionou. No mesmo local da noite anterior, lá estava ele com seus longos cabelos loiros levemente cacheados: Gabriel, o “anjo”.

Mais uma vez a conversa aconteceu com naturalidade. Stella contou sobre sua vida com o pai, seu dia a dia, e de repente parou, pensativa.

- O que foi? – perguntou Gabriel

- É que dessa parte da minha vida eu evito

falar.

- Entendo. Se não quiser falar, não fale. Mas se sentir vontade, estou aqui para ouvir e não vou julgar você por nada do que me disser.

Ela pensou um pouco mais, baixou a cabeça, olhando a areia. De repente ergueu os olhos e encarou Gabriel. Respirou fundo e soltou a frase falando tão depressa que seria difícil para alguma pessoa distraída ouvir:

 - Me apaixonei pelo meu professor de geografia!

Sem demonstrar nenhum traço de choque, surpresa ou crítica, Gabriel perguntou, calmamente:

- E ele?

- Ele o quê?

- Ele em relação a você...

- Ele não gosta de mim. Tem uma namorada firme há anos, acho até que vão morar juntos. Meu pai é amigo dele, então fica fácil eu saber algumas coisas da vida dele.

- Entendo... e ele desconfia dos seus sentimentos por ele?

- Não! – ela quase gritou. – Ele nunca vai saber, nunca, entendeu?

Ela havia se levantado da areia onde se sentaram e ele delicadamente a puxou pelo pulso, fazendo-a sentar-se novamente ao seu lado.

- Então ele nunca vai saber – disse ele com firmeza.

- É... é só um “crush” adolescente – disse ela tentando se justificar.

- O que?

- Quer dizer que é só uma paixão forte, mas acho que é passageira... e, é platônica, né? Então...

- Ah, sim. Agora entendi. – ele sorriu e voltou a olhar as estrelas. De repente, ele disse:

- A paixão humana é como se a lua se apaixonasse de repente apenas por uma estrela, sendo que existem tantos bilhões delas pra serem apreciadas, amadas...

- Mas isso não é normal?

- Sim. Aliás, nem sei se é exatamente normal, mas é muito comum entre as pessoas... Mas é estranho... Porque é como se só uma estrela brilhasse pra pessoa apaixonada. Todas as outras, por mais lindas que sejam, lhe parecem opacas.

- Você nunca se apaixonou? – perguntou Stella olhando Gabriel com muita curiosidade.

- Muito tempo atrás acredito que sim, mas não lembro.

- Quanto tempo atrás?

Ele deu uma risada gostosa e se levantando respondeu, piscando um olho:

- Milênios.

Gabriel começou a caminhar na beira da água catando conchas e fez um gesto para que Stella o acompanhasse.

- Você tá brincando, né? – perguntou ela caminhando rapidamente até ele.

- Claro – respondeu ele ficando sério de repente.

- Você acha que é ruim estar apaixonado?

- Não.

 - Mas você disse que é como não enxergar mais ninguém, não é isso que você quis dizer com a comparação com as estrelas?

-Você  é  uma  menina  muito  inteligente. Entendeu tudo.

- Sou inteligente, mas sou esquisita. Na minha classe as meninas meio que se afastam de mim, algumas chegam a rir de mim. Os meninos fazem piadinhas. Eu não tenho amigas, nem amigos. Mas assim como o Sol pode ser minha estrela preferida no céu, o Alberto pode ser minha estrela preferida na Terra. – Ela deu uma pausa e olhou de rabo de olho para ver a expressão de Gabriel. E completou: - Ou não?

- Preferida sim, mas não a única – respondeu o “anjo” com um sorrisinho.

Stella parou por uns momentos e ficou pensando na resposta de Gabriel. Será que ela estava tão apaixonada assim que não via mais ninguém mesmo? Além de seu pai, é claro. Então, ela encarou Gabriel e com uma expressão muito séria, fez mais uma pergunta:

- Por que será que parece que eu já te conheço de algum lugar? E não é conhecer só de vista não. Parece que eu te conheço pra valer mesmo, como algum amigo ou parente... Por que será?

- Porque você já me conhece mesmo.

 - Ah, não tô falando de ontem. Nos conhecemos ontem e acho que a gente teve uma afinidade e...

- Não estou falando disso. Nos conhecemos desde muito tempo atrás.

- Mas como assim?

- De outras épocas, quando tínhamos outros nomes...

- Você está falando em... reencarnação?

- Dê o nome que você preferir. Mas é fato que somos viajantes cósmicos e seguimos em frente desde o começo de nossa criação, angariando experiências, vivências e lições através dos tempos e de planeta em planeta, para nosso aprendizado nessa infinita jornada evolutiva do ser!

- Você está dizendo que meu pai está certo? Que há vida inteligente fora da Terra?

- E você duvida disso?

- Não sei... quando eu era menor, duvidava um pouco, mas no fundo eu até... eu sempre achei que não é só a Terra que é habitada e eu acho que eu não sou daqui, entende? – Ela olhou bem nos olhos de Gabriel e antes que ele abrisse a boca, já foi avisando: - Não pense que eu sou doida!

- Não pensei isso. Só pensei que você é, além de inteligente, intuitiva!

 - Nós nos conhecemos de outras vidas daqui da Terra mesmo ou...

- Isso não importa, nem tudo é pra ser dito agora.

- Mas eu quero saber!

- Tudo tem sua hora. Calma!

- Nós vamos viajar por todo o Universo? Isso é possível?

- Tem muita coisa que é possível e você desconhece. Muita coisa não é visível aos olhos dos terráqueos, porque os olhos e todo o corpo humano são feitos de matéria densa. – E temendo parecer muito pretencioso ou excessivamente revelador, emendou rapidamente - Bom, eu também desconheço muita coisa!

- Desconhece nada! Eu acho que você é um anjo e está escondendo o jogo.

- Quem sou eu pra ser anjo, Stella? Tenho muito chão pela frente até chegar lá e receber minhas asas – disse em tom de brincadeira – Sou um aprendiz. Na verdade somos todos eternos aprendizes.

- Mas um dia vamos virar anjos? Ou só você que vai?

- Nada te passa despercebido, não é?

Ela fez que “não” com a cabeça e Gabriel respondeu:

 - Todos nós passaremos por esse processo. Na verdade estamos nesse processo há milhões, ou até bilhões de anos, desde que uma energia muito forte emergiu do reino mineral e foi se sutilizando e ganhando vida orgânica no reino vegetal e se individualizando no reino animal, do qual na verdade, biologicamente falando, nós também fazemos parte.

- Explica melhor? – pediu ela cheia de curiosidade.

- No reino animal surge a alma, ou espírito, individualizado. Por que você acha que os cachorros, por exemplo, aqueles que já são mais evoluídos, chegam a se comunicar de uma forma muito próxima a da fala? Eles não estão longe de se humanizarem.

- Hum – disse ela refletindo – É por isso que papai dizia que a nossa cachorrinha, a Donda... quer dizer o nome dela mesmo era Andrômeda. Então, ele dizia que ela só faltava falar e mais nada!

- Isso mesmo! Ela está em evolução, e assim continua, sempre.

- Então eu já fui cachorro um dia? Cachorro, gato, ave, peixe...

- Bom, colocando dessa maneira, sim. Todos fomos animais, desenvolvendo pouco a pouco a racionalidade,  ao  longo  das  experiências  físicas pelos mundos mais ou menos materiais, mais, ou menos sutis. O cachorro, geralmente, é o nível mais próximo da humanização.

- Isso é complicado!

- Sim, vamos mudar de assunto então?

- Não, eu quero saber mais. Eu quero saber do Universo, as estrelas. O Universo é infinito mesmo?

- Você deveria dizer “Universos”. A Consciência Cósmica cria o tempo todo, universos infinitos, tudo submetido às Suas leis imutáveis! Tudo pulsando, tudo evoluindo, subindo pouco a pouco numa espécie de retorno à Fonte ou à Luz da qual viemos descendo até chegar ao nível mais material. E então essa vida que habita em nós, passa pelos reinos da natureza e também pelos reinos elementais, e uma vez que temos consciência plena de nosso “eu”, vamos elevando nossos níveis de consciência. Assim é possível fazer projeção astral, indo cada vez mais longe sem precisar de naves e dos portais, também conhecidos como “buracos de minhoca” que são os atalhos do nosso universo, um universo que se expande e se contrai tão rapidamente perante os olhos do Criador, mas tão lentamente diante dos olhos daqueles que estão nos primeiros níveis de consciência. Ou seja, isso leva bilhões de anos para quem vive nos mundos mais materiais como a Terra.

 - Mas por que tudo isso? Por que passamos por todas essas etapas?

- Para termos mérito! Que graça teria se tudo já estivesse pronto? Não haveria razão para nossa existência. Podemos dizer que existimos em camadas, como uma cebola. Não é bem isso, mas pra ficar mais fácil de você entender...

- Ei, agora você tá me chamando de burra?- perguntou ela em tom de brincadeira.

- Claro que não. De burra você não tem nada! Mas para as pessoas na Terra entenderem certas coisas precisamos fazer certas analogias... Bom, como eu ia dizendo, existimos meio que em camadas. Da mais grosseira até a mais sutil. Podemos chamar essas camadas de corpos ou níveis de consciência. Em planetas menos evoluídos, onde os corpos são mais grosseiros, ou seja, a matéria é mais condensada, a matéria sutil não basta. É preciso utilizar uma matéria mais grosseira para viver em planetas como a Terra. E nessa caminhada infinita, utilizamos quantos corpos menos ou mais grosseiros precisarmos, sempre de acordo com o grau evolutivo do planeta que estivermos habitando em cada experiência vivenciada. Quanto mais evoluído o planeta ou a dimensão em que estivermos, mais sutil é corpo, isto é, envoltório do espírito ou consciência. As camadas mais internas são as mais sutis, a energia é cada vez menos condensada, até o ponto de ser pura luz. – Ele deu um suspiro profundo e continuou:

- Resumindo é isso: A Vida é uma Escola infinita onde aprendemos, nos melhoramos, evoluímos o tempo todo.

- E Deus é o professor?

- Acho que não dá pra rotular Deus chamando- o de professor. E nem mesmo chamando-o de Deus. Nomes e rótulos não cabem nessa Consciência Criadora de tudo que há, essa Energia Poderosa que tudo habita, essa Força Geradora da Vida e que É a própria Vida, o Puro Amor.

- Nossa! – ela começou a caminhar e seu olhar tinha um novo brilho.

- Stella! – ela se virou ao reconhecer a voz do pai tão próximo a ela.

- Oi, pai. – respondeu ela meio sem graça. – Esse aqui é o meu amigo Gabriel.

- Oi, Gabriel. Você também admira as estrelas?

- Sim, senhor. Admiro e muito!

- Então isso explica porque a Stella fez amizade tão rapidamente com você!

Stella já havia contado ao pai sobre o garoto que conhecera na noite anterior.

 - Desculpem interromper a conversa, que sei que está muito interessante a julgar pelo entrosamento e pelas caras de vocês, mas Stella, está na hora do jantar, nossos amigos estão esperando lá em casa. Pode convidar o Gabriel. – e virando-se para o jovem: - Você gosta de lasanha quatro queijos, Gabriel?

Stella olhou para o amigo, sorrindo, mas antes que ela pudesse reforçar o convite, ele já foi logo dizendo, também sorrindo:

- Agradeço muito mesmo, fico honrado com o seu convite. Mas eu também tenho família me esperando, vocês entendem, não é? Não avisei nada a ninguém.

- Mas você não está com o seu celular? – perguntou a menina.

- Não estou, esqueci de trazer – ele respondeu meio sem jeito.

- Está bem então – disse Stella – Amanhã aqui nesse mesmo bat-local e no mesmo bat-horário?

- Hein? – ele não entendeu a brincadeira.

- Aqui mesmo, nessa mesma hora?

- Ah, sim, claro – respondeu ele deixando a confusão de lado e abrindo novamente um largo sorriso. – Até amanhã então. E um ótimo jantar para vocês. Com certeza sua lasanha deve estar deliciosa!

 - Obrigado – respondeu Lídio com um sorriso gentil – Você terá outras oportunidades de experimentá-la! Uma ótima noite pra você e obrigado também por... por essa amizade tão bonita que está dedicando à minha filha.

Gabriel apenas assentiu com um gesto de cabeça, e com um sorriso franco, se afastou acenando para pai e filha. Stella, assim como o pai, retribuiu o sorriso e o aceno.

- Há algumas naves pairando ao redor de nosso planeta. Elas aparecem e desaparecem, mas estão por aqui. – disse Lídio à Stella enquanto caminhavam abraçados, de volta para casa.

- Por que eles não se comunicam logo então? – perguntou a menina.

- Não sei. Há várias possibilidades para isso. Vamos conversar sobre o assunto no encontro de depois de amanhã.

***

O jantar transcorreu em um clima de amizade e alegria. Stella ouviu atenta as conversas de seu pai e seus amigos ufólogos. Esse assunto sempre despertou sua curiosidade, mas depois da conversa com Gabriel, ela ficou ainda mais interessada em saber sobre seres de outros planetas.

Na noite seguinte, ela foi à praia e logo avistou Gabriel de pé em cima da pedra, olhando para o mar. Ela aproximou-se bem devagar, mas ele sorriu com os lábios cerrados, e, ainda de costas para ela, foi dizendo:

- Sabe qual é a minha estrela preferida?

- O Sol? – ela perguntou ficando lado a lado com ele.

- Não. Minha estrela preferida é você.

E então ele a encarou, com um brilho diferente no olhar e um ar de seriedade.

Stella apenas sorriu. Ela entendeu a referência ao seu nome, que significa “estrela” em latim. Seu pai o havia escolhido e por sorte, sua mãe também gostava do nome. Eles sabiam que se nascesse uma menina, ela se chamaria Stella. Se fosse um menino, se chamaria Yuri, homenagem a Yuri Gagarin, o primeiro ser humano a viajar ao espaço.

A menina ficou um pouco tímida com o comentário inesperado de Gabriel. Mas logo tratou de mudar de assunto:

- Você trouxe o celular hoje?

- Não, e você?

- Eu também não. Eu te perguntei porque todo mundo anda com celular. Mas eu não gosto.

- E por que uma menina da sua idade não gosta de celular?

 - Porque ele não me deixa viver! Ele não me deixa contar as estrelas! Ele não me deixa ver o mar! Ele não me deixa cheirar as flores!

Stella parecia irritada ao dizer isso. Encarando Gabriel, ela continuou:

- E você? Por que não anda com seu celular?

- Eu também não gosto. Pra ser sincero nem tenho.

Ela ficou surpresa e resolveu fazer mais perguntas.

- Eu tenho falado de mim. Você me pergunta e eu respondo. Você até já conhece meu pai. Já sabe um segredo meu que eu não conto a ninguém. Mas eu não sei nada de você. Me conta, você mora aqui mesmo em Peruíbe?

- Não.

- De onde você é então?

- Eu sou daqui. Estou aqui agora, não é?

- Mas de onde você veio? Você sabe que eu vim de São Paulo, capital. E você?

- Eu venho de longe, muito longe. E não vou poder ficar aqui por muito tempo, então vamos aproveitar esses momentos pra conversar, passear, entrar no mar e nos divertir!

Ele então saiu correndo em direção ao mar. Stella o seguiu. Ela não quis continuar com as perguntas porque uma ideia começou a passar por sua cabeça e naquele momento ela preferia não pensar no assunto. Queria apenas aproveitar a companhia tão agradável de seu novo amigo.

***

Os dias se passaram tranquilamente. Foram as férias mais felizes de Stella nos últimos anos e o encontro de ufologia foi “o melhor de todos” para Lídio. Ele acreditava que um contato direto não iria tardar. “Eles vão se revelar, filha”, havia dito ele à menina ao voltar do encontro.

Quase todos os dias, Stella ia à praia pela manhã e passeava pela cidade com o pai à tarde. Iam fazer compras no supermercado, ao cinema, a pizzarias, restaurantes, sorveterias, praças, fazer caminhadas, etc. Mas à noite, ela corria ao encontro de Gabriel. Sempre no mesmo lugar.

Stella explicara a ele o significado da gíria “bat- horário” e “bat-local”, e ele ficara interessado em assistir a um filme do Batman. Por sorte, este filme ainda estava em cartaz em alguns cinemas brasileiros, inclusive em Peruíbe, e eles decidiram ir juntos assisti-lo. Stella notara o ar de surpresa e um certo desconforto de Gabriel na sala de cinema. Mas logo ele se acostumara e parecera gostar bastante do filme, ou pelo menos ter ficado intrigado.

- Que personagem curioso. Ele usou suas trevas para ser luz pra outras pessoas - dissera Gabriel no ouvido de Stella dentro do cinema.

Numa outra noite, Stella comentara com ele sobre o encontro de ufólogos ao qual seu pai havia ido no dia anterior.

- Você acredita que os ETs vão se apresentar à humanidade da Terra? – perguntara ela.

- Não sei. Não acho provável por enquanto.

- Por que não?

- Porque os terráqueos, aliás, a maioria deles, ainda não está preparada. Ainda fazem piadinhas de ETs, ainda têm em mente aqueles seres verdinhos e com antenas na cabeça. É um padrão que criaram e não conseguem se libertar disso.

- E como são os ETs de verdade, então?

Gabriel não respondera de imediato. Pensara um pouco e dissera com um sorriso maroto:

- Acho que depende do planeta. Você é uma alienígena na visão de um marciano!

- Ah, mas Marte não é habitado! E nem poderia ser, não tem água por lá...

- E quem disse que todos os seres do Universo precisam de água pra viver? E quem disse que os olhos do corpo humano estão aptos a ver tudo que existe?

 Essa pergunta deixara Stella sem resposta.

Gabriel continuara:

- Mas há pessoas que já estão preparadas... Já faz tempo que os ETs se comunicam com essas pessoas – então ele a encarara com uma expressão indefinível e um olhar tão fixo e brilhante que ela não conseguira encará-lo de volta por muito tempo.

Ela ficara pensativa, mas não se atrevera a fazer a pergunta que cutucava sua mente havia dias.

- Mas uma comunicação em massa não vai acontecer agora, não é? Eles não vão se revelar pras multidões, pra todo mundo ver?

- Ainda não. Mas as revelações vem acontecendo aqui e ali, até se tornarem de conhecimento geral. E aí, acontecerá o contato massivo que você diz, quando a maioria, ou pelo menos uma grande parte da população terráquea estiver preparada.

Depois de uma pausa, ele prosseguira, olhando para o céu estrelado:

- Quando a humanidade está preparada para receber uma verdade, uma revelação importante, ela chega através de várias fontes, nunca de uma só. Uma grande verdade nunca vem por um único Mestre ou Avatar, nunca está escrita em um único livro, nunca é contada por uma única Entidade, me entende? Surge sempre por fontes diferentes, quase sempre em regiões diferentes do globo terrestre e até em épocas diferentes, de acordo com a evolução e a capacidade de cada povo ou comunidade de receber essa verdade. Ela pode surgir através de religiões, filosofias ou ciências. Ou através de todos esses recursos, ou dois deles, ao mesmo tempo. Mas o fato é que uma revelação verdadeira pra se fazer confiável, precisa chegar por canais distintos. Você me entende?

A menina o olhara com uma carinha meio confusa e respondera:

- Acho que sim, mais ou menos... É meio complicado, né? Mas dá pra entender sim...

Gabriel então mudara de assunto. Começara a falar de coisas mais triviais e até declamara um poema que havia escutado dias antes em uma praça.

***

Na última noite de Stella em Peruíbe, véspera da volta às aulas, ela chegou ao encontro com Gabriel com lágrimas nos olhos.

Assim que ele a viu, veio correndo até ela. Ele estava sorrindo.

- Por que você está chorando, minha estrela?

- Porque eu vou embora amanhã de manhã e não vamos nos ver mais.

- Quem disse isso?

 - Você disse que não vai ficar muito tempo aqui, então nas minhas próximas férias ou mesmo se eu vier aqui antes disso em algum feriado ou final de semana, você já vai ter ido embora. Ou não?

- Não sei, pode ser que sim, mas não tenho certeza. Acabando a tarefa, nós partiremos.

- Nós quem?

- Eu e... a minha família – disse ele se virando meio de costas para ela.

- Que tarefa é essa?

- Pesquisas... Mas isso é um assunto chato. Vamos falar de outra coisa. Você está ansiosa pra voltar às aulas ou está desconfortável quanto a isso?

- Eu estou bem. – ela pensou, e olhando para baixo resolveu contar a respeito de suas mudanças sentimentais - Eu nem penso mais nele.

- Seu professor Alberto?

- É. Eu estive pensando bem. Ele nem é tão bonito. E ele tem uns hábitos estranhos, mas quando a gente tá apaixonado a gente não presta atenção nas coisas ruins sobre a pessoa amada, né?

- Que hábitos estranhos ele tem?

- Ele fuma cigarro de led e coleciona borboletas, coitadinhas!

- Hum, sei. Borboletas mortas...

- É. Mas ele diz que não tem outro jeito de colecioná-las.

 - Ele não precisa colecionar. Por que ele não faz coleção de uma coisa que não seja um ser vivo?

- Ele gosta de borboletas.

- Não gosta. Se gostasse iria querer mantê-las vivas! – ele segurou a mão de Stella e continuou – Existe um jeito de colecionar borboletas vivas.

- Como?

- Observando-as, fixando-as na memória e anotando suas características, ou desenhando-as. Eu coleciono bons momentos. Esse momento por exemplo, vou levar comigo. Espero que você também leve com você, pra sempre.

Stella começou a chorar novamente. Ela sabia que aquilo era uma despedida.

Ela abraçou Gabriel com uma força com a qual jamais abraçara ninguém além de seu pai, talvez Maria... e provavelmente Léa, sua mãe, mas dela Stella não se lembrava a não ser muito vagamente.

- Minha estrela, meu amor – disse Gabriel bem baixinho, sem ter certeza se Stella, entre soluços, tinha ouvido suas palavras.

- Eu nunca mais vou te ver! – disse a menina soluçando.

- Não diga isso! Eu não sei quando, mas uma coisa te garanto: nós vamos nos ver novamente. Disso eu tenho absoluta certeza.

- Você promete?

 - Prometo.

- Não está falando isso só pra me agradar e me ver feliz?

- De jeito nenhum. Eu não gosto de mentiras. Eu prometo que vamos nos ver de novo um dia e não vai ser um encontro breve como foi desta vez.

E ao ver o olhar dela, ainda meio inseguro, ele deu uma risadinha e falou em tom de brincadeira:

- Palavra de anjo!

Stella também riu e disse:

- Já ouvi falar “palavra de escoteiro”, mas de anjo é a primeira vez!

Ele perguntou o que é escoteiro e Stella explicou direitinho. Eles deram mais uma volta pela praia, conversando alegremente. Mais um abraço apertado e então Stella deu um beijo na bochecha de Gabriel e saiu correndo. Já no calçadão ela gritou para ele, que se mantinha perto do mar:

- Até nosso próximo encontro, nesse ou em outro planeta! Eu amo você, Gabriel!

E saiu correndo para casa, pois seu pai já devia estar preocupado com sua demora. Eles ainda iriam jantar e logo depois, dormir para acordar cedo no dia seguinte. Stella não iria à aula naquela segunda- feira, mas Lídio teria trabalho no planetário.

Stella não viu uma luz se erguer acima do mar e sumir em uma sombra que pairava no ar.

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