Esse conto faz parte do meu livro "Esses Contos Que Eu Te Conto - VIDAS Vol 1", de 2023.
Juliette desceu as escadas pensando em deixar um de seus sapatos – na verdade tênis – para trás, com a esperança de que algum príncipe a seguisse e pegasse o calçado propositalmente abandonado, para depois, ao reencontrá-la e experimentá-lo em seu pé, pedir sua mãozinha em casamento e levá-la para morar com ele em seu castelo, onde seriam felizes para sempre.
Mas ela apenas pensou nisso, evidentemente não o fez. Continuou seu caminho, rindo da ideia infantil que lhe passara pela cabeça.
Juliette não era uma menininha de sete anos, era uma mulher de quase trinta. Desde criança, era fascinada pela história da Cinderela, mas ainda não havia encontrado seu príncipe encantado e àquela altura de sua vida já nem procurava mais por ele.
Apaixonada por sapatos também desde criança, Juliette nutria por sua falecida mãe um misto de orgulho e vergonha.
Gabrielle Lamaire havia sido uma bela modelo francesa, de 1 m e 78 cm de altura, impressionantes olhos azuis e longos cabelos pretos e lisos. Chegou a desfilar para a Chanel. É verdade que foram apenas duas vezes, mas o fato é que ela cruzou as passarelas usando um vestido de festa e um biquíni
da famosa grife, na Paris dos anos 60. Ela tinha tudo para tornar-se famosa, mas um acidente de carro destruiu seus sonhos de uma carreira duradoura e repleta de sucesso, fortuna e glamour.
Gabrielle sofreu uma horrível fratura em sua perna durante o acidente, que a deixou por mais de um mês hospitalizada e por quase um ano com a perna imobilizada. Depois disso, foi mais um ano e meio de fisioterapia, e só então ela voltou a andar – mas mancando.
Com dificuldades financeiras, após a morte de seu pai e a ida de sua mãe para um manicômio com sérios problemas mentais adquiridos devido ao alcoolismo não tratado, a ex-modelo resolveu, aos 23 anos de idade, vir morar com uma tia que vivia no Brasil já por mais de uma década.
No Rio de Janeiro, onde morava com a tia e seu marido brasileiro, Gabrielle conheceu Paulão, com quem viveu um tórrido romance de uns seis meses. Engravidou. Ao saber da novidade, ele a deixou, indo logo em seguida morar na Bahia. Felizmente, tia Celine compadeceu-se da jovem e a amparou durante a gravidez e o nascimento de Juliette.
Após a morte dos tios, que não tinham filhos, Gabrielle herdou a casa, mas precisou trabalhar para sustentar a si mesma e sua filha, que estava com nove anos de idade na época.
A ex-modelo francesa então trabalhou como babá, balconista e empregada doméstica. Desiludida com os homens, rejeitava qualquer pretendente. Conseguiu que Juliette concluísse o ensino fundamental, mas contraiu diabetes e foi ficando cada vez mais debilitada, e para piorar, se recusava a parar de comer massas e doces. “Já não tenho diverrrsão nenhuma na vida, não vou abrrrirrr mão de comerrr o que gosto”, dizia ela com seu sotaque bastante carregado.
Juliette, aos quinze anos, teve que parar de estudar para trabalhar e acabou seguindo o mesmo destino da mãe: o de empregada doméstica.
Gabrielle, após vender sua casa, faleceu aos cinquenta e poucos anos devido a complicações de sua diabetes. Nunca ouvira os conselhos e apelos da filha e de amigos para que levasse seu tratamento a sério e seguisse a dieta receitada pelos médicos.
***
Assim, encontramos Juliette nos anos 90, dois anos depois da morte de sua mãe, indo para casa após um longo dia de trabalho. Tendo descido quatro andares de escada – devido à manutenção dos dois elevadores – no prédio onde trabalhava como doméstica na Barra da Tijuca, ela atravessou a rua e pegou o ônibus lotado.
Depois de mais de uma hora balançando-se de pé, suspirando e suando no trânsito engarrafado, chegou em casa: um apartamentinho de quarto e sala nas Laranjeiras, que dividia com uma amiga – Juliette, que pagava a menor parte do aluguel, dormia na sala e tinha uma cômoda com suas roupas no quarto da amiga. Num móvel multiuso de duas portas que ficava na sala ao lado do sofá-cama onde dormia, estava o seu tesouro: enfileirados nas prateleiras, sapatos, sandálias e botas de todos os modelos, marcas e cores faziam brilhar os olhos castanhos da moça.
Nas revistas de moda que colecionava, o que mais chamava sua atenção eram os sapatos. Sempre eles. Seu salário ia embora rapidamente, porque ela comprava pelo menos um calçado lindo e chiquérrimo por mês, muitas vezes ficava pagando prestações intermináveis. Quase nunca os usava e pouco se importava se eles saíssem de moda. Gostava de limpá-los e ficar horas olhando para eles, imaginando-se nas festas badaladas da alta sociedade carioca, ostentando-os e sendo invejada pelas socialites, ou desfilando com eles em seus pés miúdos, nas passarelas francesas como sua mãe fizera em duas preciosas oportunidades. Em meio a
várias marcas nacionais, ela orgulhava-se de ter em sua coleção um belíssimo Prada vermelho de salto fino e altíssimo e um Gucci preto de salto grosso.
À noitinha, ao chegar, tirou os tênis surrados e antes mesmo de tomar seu banho ou jantar, resolveu calçar o precioso e caríssimo Prada, do qual acabara de pagar a oitava prestação (ainda faltavam três). Tirou o par de sapatos da prateleira com todo cuidado e beijou-os, calçando-os em seguida bem devagar, com carinho, a mente viajando em seus sonhos de glamour. Caminhando como se estivesse desfilando em Paris, foi até o espelho do quarto da amiga e ficou fazendo pose e admirando sua figura, de calça jeans, camiseta de malha e... um par de sapatos Prada vermelhos nos pés!
Embora não tivesse a beleza estonteante e a elegância da mãe, ela não era nada feia! Herdara os olhos castanhos e penetrantes do pai, mas os cabelos pretos e lisos, a pele clara, o nariz fino e imponente e o sorriso largo de dentes bem feitos eram iguaizinhos aos da mãe.
Depois de mais ou menos meia hora, Juliette voltou à realidade, tirou os sapatos e foi correndo guardá-los antes que a amiga, também empregada doméstica, chegasse e começasse a debochar de seus “sonhos de Cinderela”. Pegou na parte superior da geladeira o pote com estrogonofe que havia deixado pronto na véspera, despejou-o numa panelinha e levou-o ao fogão para descongelar, correndo em seguida para o chuveiro. Enquanto a água caía por seu corpo cansado, ela ouviu a chave rodar na fechadura da porta da sala. Era sua amiga, Mayara, que estava chegando.
Mayara era uma “mulata sacudida” – como gostava de referir-se a si mesma – de 26 anos, superalegre e de bem com a vida, que tirara de letra o fim do namoro – que ela decidiu terminar – de cinco anos com “aquele ciumento do Juca”. Tinha um sorriso fácil e um coração enorme. Mas gostava de fazer piadas com a “mania de grandeza” da amiga franco-brasileira. Juliette gostava muito dela, era a irmã que queria ter tido. Agora ela iria sair do banho, as duas amigas iriam sentar-se na pequena mesa da cozinha, jantar o estrogonofe com o arroz e a batata palha comprada no mercado da esquina, e contar uma à outra como foi o dia, o que as patroas fizeram e disseram, e depois, assistir juntas à novela das sete, o telejornal e a novela das oito.
***
De madrugada, Juliette sonhou que estava num baile, dançando com o príncipe e usando o sapato
Prada vermelho de sua coleção. De repente, soaram as doze badaladas da meia-noite e ela saiu correndo, mas tropeçou na barra do vestido e rolou escada abaixo. Ao olhar para os pés não viu sapato nenhum e sim o tênis que costumava usar no dia-a- dia. Mas nisso ela já estava acordando, confusa, entre o sonho e a vida real. Abriu os olhos e viu que estava confortavelmente deitada em seu sofá-cama. Riu de si mesma e olhou o relógio em seu pulso: eram 6 horas e 10 minutos, hora de preparar-se para mais um dia de trabalho. Ouviu o chuveiro sendo ligado. Era Mayara no banho. A realidade impunha-se, brutal, insensível.
***
Naquela noite, ao chegar do trabalho, ela deu com Mayara já em casa e não escondeu sua felicidade:
- Eles me convidaram, eles me convidaram!
- Do que você está falando, mulher? – perguntou a amiga sem entender nada.
- Os Fonseca, meus patrões, ué! Me convidaram para as bodas de prata deles! Vai ser uma festança, só vai gente rica e importante e eu vou estar lá! Quero que você vá comigo!
- Eu não! Não curto essas festas de gente grã- fina, cheia de frescuras...
- Ah, vamos May, por favor... Eu não quero ir sozinha...
Insistiu, insistiu, insistiu...
Mayra, para encerrar o assunto, disse:
- Vou pensar e te falo. Quando é a festa?
- Daqui a três semanas.
- Uns dias antes te conto o que decidi.
Mas Mayara não iria coisa nenhuma. Ela gostava mesmo era dos pagodes com amigos e das festas na quadra da escola de samba de seu coração. Festa de rico? “A gente nem pode comer direito, tem que ficar toda cheia de dedos, um monte de etiqueta que não entendo. Ah, não! Eu não fico à vontade”, dizia ela sobre esse tipo de comemoração.
Os dias e as semanas se passaram sem que Juliette conseguisse pensar em outra coisa. Mandou fazer um vestido cinza com detalhes em vermelho que copiou de uma revista “chique” de moda. Ia usar seu sapato favorito, o Prada, pela primeira vez. Já tinha marcado cabeleireiro, manicure e maquiagem. Estava nas nuvens. Caiu delas três dias antes da festa quando Mayara disse que não iria e que não adiantava insistir. Ficou triste, mas não desistiu. Iria sozinha mesmo e lá tentaria conversar com algum rapaz bonito que prestasse atenção nela.
Sim, porque ela estaria linda e certamente não passaria despercebida aos olhos de algum belo solteiro que estivesse no badalado clube.
Na noite da festa estava chovendo muito. MUITO MESMO. Era um sábado, e passava pouco das 20 horas quando seu taxi chegou.
- Você tá linda. Vai ser feliz, mulher! – disse Mayara na porta ao vê-la sair. Não era porque não gostava desse tipo de festa que ela iria desencorajar a amiga que tanta importância dava ao glamour.
Juliette abriu seu guarda-chuva prateado com fundo cor de vinho e foi caminhando pela rua em direção ao taxi. Difícil era andar usando aquele sapato com tantas poças d’água e uma chuva cada vez mais forte. Mas ela bravamente venceu o curto percurso – que lhe pareceu longuíssimo devido à chuvarada. Entrou no carro e falou o endereço para o motorista. Lá foi ela feliz da vida e se sentindo uma rainha.
Na chegada, a chuva estava ainda mais forte. Ela pagou ao taxista, e dispensando-o, desceu do carro, abrindo o guarda-chuva. Ele tivera que parar um pouco distante da entrada do clube por causa da imensa fila de carros que havia ali. Cada carrão mais lindo que o outro! Pertenciam certamente aos convidados da festa.
Juliette foi andando devagar, mas estava difícil caminhar. Entre a rua e a calçada, a água corria como se fosse um estreito rio, mas com uma correnteza assustadora. Como ela iria atravessar toda aquela água? Não podia desistir! Esticou a perna para dar o passo, mas mal seu pé direito tocou a água e esta levou o seu lindo sapato rua abaixo. Ela gritou e tentou correr em sua direção, mas era impossível. Ela não conseguia nem enxergar com toda aquela chuva. Juliette ficou desesperada. Como iria para a festa com apenas um pé de sapato? E se tentasse atravessar de novo aquela correnteza poderia perder o outro pé também. Não sabia o que fazer. Ficou ali por uns minutos, de guarda-chuva aberto, chorando como uma menina que perdeu a boneca. Foi aos poucos se afastando do clube, mancando com um pé de sapato alto e o outro descalço.
De repente pensou na mãe, que mancava devido ao acidente sofrido: “devia ser assim que ela se sentia”. Chorou mais. Quis morrer. Teve saudades da mãe e naquele momento só conseguiu sentir orgulho da mulher batalhadora que, mesmo tendo visto seus sonhos serem enterrados, levantou a cabeça e seguiu em frente, dando um duro danado para criar sua amada filha. “Perdoa eu, mãezinha, porque em certos momentos tive vergonha de você
porque você mancava, porque você foi abandonada pelo meu pai comigo na barriga, porque você era diabética e não se cuidava, porque você trabalhou como empregada doméstica depois de ter sido modelo em Paris, e porque eu acabei me tornando uma empregada também e não pude concluir os meus estudos. Mas agora só sinto orgulho de você. Você trabalhou pra me dar o melhor que pôde, você me ensinou a ser boa e honesta, você não tem culpa de ter sofrido aquele maldito acidente e nem de ter sido abandonada. Seu erro foi não se tratar quando ficou diabética, mas você também tem o direito de errar e eu não te condeno por isso. Tudo que eu queria era que você estivesse aqui pra eu poder te abraçar. E sabe de uma coisa? Eu até perdoaria meu pai se tivesse uma chance de conhecê-lo”. E foi aí que Juliette desabou de vez.
Ela entrou debaixo do toldo de um bar e sentando-se a uma das mesinhas, debruçou-se sobre ela e chorou copiosamente, até que um garçom veio perguntar se ela estava bem e se precisava de alguma coisa. Enxugando as lágrimas com as costas das mãos ela pediu um copo de vinho tinto, ao que o garçom atendeu prontamente, oferecendo-lhe também um lenço. Ela agradeceu e reparou que aquele garçom era bem bonito. Ele não conseguia tirar os olhos dela, mas talvez julgando tratar-se de alguma madame, com custo, ele baixou o olhar e, pedindo licença, se retirou para dentro do bar, indo atender outros fregueses. Cerca de uma hora depois ela pagou a conta e pediu ao mesmo garçom que lhe chamasse um taxi. Os seus olhares se cruzaram de novo, demoradamente. Ela leu e gravou na mente o nome do bar ao entrar no carro, que demorou poucos minutos a chegar. Iria voltar ali só por causa do garçom!
Já no apartamento, nem sinal de Mayara. Mas deu pra sentir seu perfume no ar. “Foi pro pagode!”. Juliette ficou surpresa ao perceber que não sentiu raiva da amiga por ter trocado a raríssima oportunidade de ir a uma “festa de grã-fino” em sua companhia pelo pagode que frequentava quase toda semana. Mais calma, tomou uma ducha quente, preparou um chá de hortelã e depois de tomá-lo, enfiou-se debaixo do seu cobertor. Ainda chorou mais um pouquinho antes de adormecer.
***
Na manhã do dia seguinte – diga-se de passagem, um belo domingo de sol – em Ipanema, bairro onde havia ocorrido a festa que Juliette perdera, uma menina de seus doze anos corria para perto de seu pai com um objeto na mão.
- Pai, olhe! Um sapato tão bonito! – disse ela com um sotaque baiano - Vamos procurar o outro pé pra gente vender, ele deve custar caro!
- Sapato usado não vale muito, princesa – respondeu o pai, um senhor de seus sessenta e poucos anos.
Ele fora entregar uma encomenda num prédio ali por perto e levara a filha junto com ele. Era marceneiro e artesão, e entregara uma cadeira de balanço daquelas antigas que consertara para um casal de idosos. A menina ainda olhou em volta, andou mais uns metros procurando o sapato e, sem encontrá-lo, resolveu levar o único pé que tinha nas mãos. Entrou na caminhonete do pai pensativa. Com o veículo já em movimento ela disse:
- Pai, vamos tentar achar a dona do sapato! Ela deve estar procurando por ele. Ontem choveu muito, o sapato deve ter saído do pé dela porque é de entrada rasa...
- Boa ideia, filha! Amanhã vou colocar um anúncio no jornal!
Ao chegarem ao Méier, bairro onde moravam havia um mês, ele parou a caminhonete em frente à garagem da casa alugada e foi abrir o portão. Nisso o vizinho cumprimentou-o:
- E aí seu Paulo! Muito trabalho já cedo? Era assim lá na Bahia também ou só na rede?
- Que rede nada! Eu trabalhava muito por lá também. E vocês têm que parar com essa mania de achar que baiano é vagabundo!
Paulo e sua filha Victória vieram para o Rio depois que a mãe da menina o deixou e seguiu com um milionário para o Paraná. Fazia pouco mais de um mês que haviam chegado e ele já havia conseguido muitos fregueses devido à propaganda publicada nos classificados dos jornais cariocas.
***
Na terça-feira saiu o anúncio sobre o sapato.
Nas Laranjeiras, as duas amigas desciam juntas para irem trabalhar. Mayara, que passara o domingo inteiro e parte da segunda-feira consolando a amiga pelo seu sonho destruído e o sapato perdido, não tirava os olhos do jornal, porque estava procurando outro emprego, pois não aguentava mais as frescuras da atual patroa. De repente ela deu um grito:
- Juliette, você não vai acreditar! Acharam o seu sapato, olha isso aqui!
Naquele dia Juliette não foi trabalhar. Ela pegou o ônibus para o Méier e foi direto ao endereço dado por “aquele senhor simpático” com quem tinha falado há pouco no telefone. Tocou a campainha. Veio atender uma garotinha igualmente simpática e com um sotaque baiano. Convidada a entrar e sentar-se, ela esperou menos de três minutos até que um senhor apareceu à porta e ficou paralisado ao vê-la.
Já estava com o sapato na mão e iria imediatamente entregá-lo, mas não deixaria aquela moça sair de sua casa sem perguntar a ela se era filha de uma francesa chamada Gabrielle Lamaire, da qual ele não tinha notícias havia muitos e muitos anos. Ele estava emocionado com a possibilidade de reparar um erro do passado, uma culpa que o perseguira por quase três décadas.
Não. Naquele momento Juliette não estava prestes a encontrar o príncipe de seus sonhos, mas sim o pai de sua vida real – e como bônus, uma meia-irmã que era um amor de menina, como ela mesma fora quando tinha aquela idade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário