Aqui postarei alguns de meus melhores contos, tanto de antologias das quais participei quanto de meus livros. Se você gosta de literatura, fica aqui o meu convite para conhecer alguns "desses contos que eu te conto".

sábado, 26 de julho de 2025

Seis Cartas Para O Papai Noel


Conto escrito para a antologia "Contos Natalinos", de 2023/2024


Alice era uma garotinha de apenas 9 anos, mas já vivia sobrecarregada com muitas tarefas e afazeres que deveriam ser realizados por um adulto. Alice não estava na escola e se sentia muito triste por isso.
Seu pai falecera um ano antes, e ela fora obrigada a parar de estudar para ajudar em casa, já que sua mãe passava os dias, de segunda a sábado (e às vezes até mesmo aos domingos!) fazendo faxina em casas de diversas pessoas para sustentar a família. 

Sendo a mais velha dos cinco irmãos, Alice cozinhava, lavava, passava, limpava a casa, fazia compras no mercadinho da esquina e na padaria e cuidava dos irmãos menores: Marina, de 3 anos e Paulinho, de apenas 1 ano e meio. Os outros dois eram Fabiano, de 7 anos e Arthur, de 5. Eles eram os únicos a frequentar a escola.
Um dia, ao final daquele ano, Alice foi ao mercadinho comprar feijão, pois havia acabado. Ela precisava fazer o almoço a tempo para que seus irmãos estudantes pudessem ir de barriguinha cheia para a escola, afinal, nem sempre havia merenda gratuita e quando havia, não era das melhores! Na volta para casa, ela foi observando os enfeites de Natal nas ruas e sentindo uma enorme tristeza, porque sua família, mais uma vez, não poderia celebrar a data. 
Já na porta de entrada de sua casa, ela teve uma ideia. E assim que terminou suas tarefas e enviou seus irmãos para a escola (que ficava a três casas da sua, na mesma calçada), pegando Paulinho no colo, e dando a mão à Marina, Alice foi até a casa da Professora Laurinda, ex-diretora da escola, que havia recentemente se aposentado. 
Dona Laurinda era muito amiga de Alice, desde os tempos que ela frequentava a escola. Sempre ajudou as famílias necessitadas e incentivou os alunos nos seus estudos. Como sempre, a menina e seus irmãozinhos menores foram muito bem recebidos e já de cara ganharam biscoitos. 
- Mas me diz, minha menina. Em que eu posso te ajudar?
- Sabe o que é, Professora? Está chegando o Natal e eu estou muito triste, porque no ano passado, depois que o papai morreu, nosso Natal foi muito ruim, sabe? Nós não ganhamos presentes e mal tivemos arroz com feijão pra comer. Eu acho que o Papai Noel era amigo do meu pai, porque ele agora se esqueceu de nós. E eu não quero que ele esqueça de novo. Então esse ano quero escrever pra ele seis cartinhas. Uma vai ser minha e as outras dos meus quatro irmãos e também uma da minha mãe. Mas eu não quero que ela saiba. Eu não sei escrever direito e eu queria seis cartinhas bem bonitas pro Papai Noel. A senhora escreve as cartas pra mim, por favor?
Diante de tão tocante pedido, e dos olhinhos esperançosos da menina, Dona Laurinda não pôde dizer “não”.
- Está bem, querida. Me diga o que cada um quer ganhar e eu escrevo as cartinhas.
E assim, Alice explicou cada um dos pedidos que iriam em cada uma das seis cartas: para sua mãe um agasalho novo, porque quando chegava o frio, ela tinha que ir trabalhar sempre com o mesmo agasalho, que já estava rasgando e, no dia que ela o lavava, ia trabalhar com frio, por não ter outro. Para Fabiano, que estava no segundo ano do ensino fundamental, ela pedia um caderno e estojo com lápis, borracha e apontador e se possível, uma bola, porque ele vivia brincando com bolas de meia, e adorava jogar futebol. Para Arthur ela pedia um barquinho de brinquedo, porque ele vivia rasgando folhas do caderno da escola para fazer barquinhos de papel. Para Marina, ela pedia uma “bonequinha de laço de fita”, que era o sonho da irmãzinha. Para Paulinho ela pedia um trenzinho de puxar porque ele vivia puxando latinhas que a mãe havia unido com um barbante para fingir de trenzinho. E finalmente, para ela, um livro de “Alice no País das Maravilhas”. Ela havia ouvido a história aos seis anos, no primeiro ano, e nunca mais se esquecera das aventuras de sua xará famosa. Mas Alice também tinha outro pedido, o mais importante de todos para ela:
- Eu também quero muito voltar para a escola, Professora. Escreve isso também na minha cartinha? Pede ao Papai Noel pra dar um jeitinho de me fazer voltar a estudar?
Quando a menina saiu, carregando seus dois irmãos pequenos, Dona Laurinda não conteve as lágrimas. E naquele momento, decidiu que iria ajudar Alice e sua família, agora mais do que nunca! Viúva e com problemas de saúde, ela não teria condições de comprar todos os presentes. Então resolveu ir pedir ajuda a cinco amigos com situação financeira estável e que, ela tinha certeza, não recusariam seu pedido. 
Naquela mesma tarde a boa ex-diretora visitou cinco casas, pedindo que cada pessoa escrevesse uma cartinha ao Papai Noel, ficando ela com a de Alice. Mas por que ela mesma não as escreveu ou não pediu simplesmente os presentes? A resposta é simples: Ela queria sensibilizar ao máximo as pessoas para que o gesto delas não fosse apenas um favor prestado a uma amiga, mas um ato de amor e compaixão por essas pessoas e o sincero desejo de fazer o Natal delas mais feliz.
Assim foi feito. Cada uma das pessoas procuradas por Dona Laurinda escreveu a cartinha e de maneira espontânea, manifestou o desejo de doar o presente que estava sendo pedido ao Papai Noel.
Chegou a véspera de Natal. Dona Laurinda convidou a família de Alice, inclusive sua mãe, dona Lêda, para um lanche à tarde. Enquanto isso, seus amigos, preparavam uma surpresa, combinada previamente com a ex-diretora.
Ao chegarem em casa, eles levaram um susto tão grande, a ponto de pensar que tivessem errado de casa! Uma árvore de Natal estava montada a um canto e em volta dela havia seis embrulhos de presentes. Na mesa, havia uma ceia com peru, arroz de forno, maionese, farofa, panetone, rabanadas, nozes, castanhas, doce de figo, frutas e refrigerantes.
Emocionados e maravilhados, os integrantes daquela família não paravam de se abraçar! As crianças correram para abrir os presentes e lá estavam a bola e o material escolar de Fabiano, o barco a pilha de Arthur, a boneca de laço de fita de Marina, que de tão perfeita parecia um bebê de verdade, o trenzinho também movido à pilha de Paulinho, o livro com a história “Alice do País das Maravilhas” pedido pela protagonista de nossa história, numa versão ilustrada tão linda que as figuras até brilhavam!
Mas a maior surpresa ainda estava por vir: quando dona Lêda abriu o seu presente, lá estava um belo agasalho de lã e um envelope. Dentro dele havia o equivalente ao valor mensal de pelo menos três faxinas semanais (R$1000,00), e um bilhete dizendo que ela receberia esta quantia todos os meses até conseguir um trabalho fixo e melhor remunerado. A condição era que todas as crianças em idade escolar, estudassem.
A boa senhora, chorando, emocionada, ergueu as mãos para o céu em gratidão e em seguida, fez um sinal para que sua filha mais velha se aproximasse. Conhecendo bem a esperteza da menina, perguntou:
- Alice, isso aqui tem dedo seu, né?
- Meu não. Do Papai Noel. Eu só pedi à professora Laurinda pra escrever seis cartinhas pra ele e pelo visto ele recebeu, mamãe! O Papai Noel esse ano se lembrou de nós!

 

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